sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A INTERTEXTUALIDADE NA POÉTICA DE ANGELA GUTIÉRREZ - Túlio Monteiro*


1- INTRODUÇÃO

Imaginemos que tudo o que lemos, ouvimos, vimos e até produzimos no nosso cotidiano já possa ter sido dito, escrito e produzido antes. Consideremos que nossos discursos, quer sociais, políticos ou acadêmicos, apesar das conotações bem particulares que lhes damos, estão repletos de concepções e influências de um infindável número de pessoas e culturas. São conhecimentos adquiridos por anos a fio através de nossos pais, amigos, parentes, livros, filmes, viagens que fizemos. Será difícil admitirmos que nossa individualidade não é, por assim dizer, tão individual como imaginávamos e que nosso conhecimento de mundo, absorvido ao longo de anos de aprendizado árduo nos dá, no máximo, sutis diferenciações entre nós e o resto de nossos semelhantes, nos fazendo chegar à dificílima constatação de que não somos tão “inéditos” quanto pensávamos ser.

Se entre nós é assim que se processam as diferenciações, o que dizermos da literatura, tão rica em conhecimentos e possibilidades, mas tão infinitamente menor que a natureza humana? Analisando-se o problema por esse prisma, torna-se impossível se esperar que haja textos completamente originais, livres de interligações com outras produções de escrita ou mesmo com o contexto sócio-político-cultural em torno do qual eles giram.

Foi seguindo esta linha de raciocínio que nos anos 1960, a crítica francesa Júlia Kristeva, fundamentada nos conceitos e estudos deixados pelos formalistas russos Mikhail Bakhtin e Tinianov, concebeu a noção de intertextualidade: “Todo texto é absorção e transformação de uma infinidade de outros textos”. Naquele momento, Kristeva concedia formalização teórico-crítica à noção do dialogismo de Bakhtin, real precursor da intertextualidade tal como ela é conhecida hoje.

São diversas as modalidades de intertextualidade. Porém, por uma questão de adequação desta pesquisa ao romance que ora analisaremos, nos deteremos apenas nos quatro tipos que podem ser nele detectados:

EPÍGRAFES e/ou CITAÇÕES: processos onde um autor cita de forma literal, no corpo de seu romance ou trabalho poético, trechos selecionados de outras obras, sejam estas literárias ou não.


ALUSÃO: O autor faz referências a uma ou mais obras, literárias ou não, sem, no entanto, valer-se de citações literais das mesmas, diferencialmente como ocorre no processo intertextual acima.

C- VERBALIZAÇÃO: Consiste na passagem de um sistema significante não verbal para o verbal. As descrições de obras de arte já consagradas (esculturas, pinturas dentre outras), são bons exemplos desta técnica intertextual.

D- PARÁFRASE e/ou PARÓDIA: Na PARÁFRASE, o autor reescreve ao seu modo, determinados trechos de uma outra obra, seja ela literária ou não. Já no caso da PARÓDIA, o sentido desta reescrita é voltado para a ironia, para uma crítica ao texto original.

Fundamentados nas informações acima, decidimos que seria nesse âmbito o enquadramento da presente pesquisa.

Inicialmente, localizaremos e listaremos os tipos de intertextos contidos no romance O Mundo de Flora, especificando, logo em seguida, as fontes originais destes mesmos intertextos.

Para um melhor entendimento das propostas relacionadas no parágrafo anterior, sugerimos uma breve apreciação do gráfico a seguir:


1º MOMENTO: Localizar os intertextos contidos n’O Mundo de Flora;

2º MOMENTO: Listar por ordem de categorias, os tipos de intertextos existentes no referido romance;

3º MOMENTO: Especificar as fontes originais dos intertextos detectados.


2 – A INTERTEXTUALIDADE NO ROMANCE “O MUNDO DE FLORA”

É preciso ser ignorante como um asno, para jactar de dizer uma única palavra que ninguém neste mundo tenha dito antes de nós. ( Alfred de Musset ).

2.1 – EPÍGRAFES e/ou CITAÇÕES

Página 26: “ Os olhos maiores que a barriga “
 
Sinônimo de gula. Ditado popular muito utilizado nas regiões norte e nordeste do Brasil, para referir-se a alguém que come além do necessário.
 
Página 26: “ Pra morrer é só tá vivo. “
 
Ditado popular brasileiro.

Página 44: “ Um, dois, três lampiões acende e continua
outros mais a acender imperturbavelmente
à medida que a noite aos poucos se acentua
e a palidez da lua apenas se pressente”
 
Estrofe do soneto ‘O Acendedor de Lampiões’, do alagoano Jorge de Lima.

Página 48: “Entrou pela perna do pato, saiu pela perna do pinto, o senhor-rei mandou dizer que contasse mais cinco”
 
Frase com que se costumava terminar histórias infantis lidas ou contadas às crianças de algumas décadas atrás, sendo esta hoje uma prática muito rara.

Página 51: “Flora morena se aborrecia. Methodo Stott. Série de três livros. Para ensinar a ler, escrever e falar em língua ingleza de accordo com os modernos preceitos pedagógicos para o aprendizado das línguas vivas. Por José Stott, Lente Cathedrático do Gymnasio do Estado de S. Paulo. Estado de S. Paulo, Brazil. Livraria Francisco Alves & Cia. Rua do Ouvidor, 286 - Rio de Janeiro.”

Descrição literal da capa do livro ‘Methodo Stott’ de 1911, muito utilizado pelos estudantes da época para o aprendizado da língua inglesa;

Página 64: 
“ O meu boi morreu
Que será de mim?
Manda buscar outro
Lá no Piauim.”

Trecho de uma música popular brasileira, de Eduardo Neves e Bahiano (1916).

Página 124: “ Ouvi ao seu lado as palavras finais: ‘Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.’ “

Trecho da carta-testamento que o Presidente Getúlio Vargas endereçou à nação brasileira, pouco antes de suicidar-se nos em meados do século 20.

Página 136: “ Finge zanga, não, flô. Toda menina que enjoa da boneca é sinal que o amor já chegou no coração.”

Trecho da música ‘O Xote das Meninas’, de Luíz Gonzaga e do cearense Humberto Teixeira;

Página 137:
“ Meu ser evaporei na lida insana
No tropel das paixões que me arrastam
Ah...”
 
Versos do poema ‘Contrição’ do poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage;


Página 141/142: 
“ O homem da vassoura vem aí
Não sei por onde vou com a família
Eu só queria, eu só queria
Ver o homem da vassoura em Brasília
Ai, lá vai ser muito legal
Em Brasília vai ter outro carnaval
Ai, lá vai ser muito legal
Em Brasília vai ter outro carnaval.”

Aqui a autora faz referência à marchinha carnavalesca composta para a campanha presidencial de Jânio Quadros Quadros nos anos 1950. Jânio, usou a vassoura como símbolo de sua campanha para referir-se à limpeza que ele se propunha a fazer na política brasileira. Por conta disso, ganhou a alcunha de homem da vassoura.

Página 145: “ Livros? Relendo o Grande Sertão, que tanto me fascinou. Estou nas páginas finais. ‘Diadorim, Diadorim, oh, ah, meus buritizais levados de verde.’ ” .
 
Trecho do romance Grande Sertão: Veredas, do escritor João Guimarães Rosa;


Página 149:
 “ Pra ver a banda passar
cantando coisas de amor.”
 
 Trecho da música “A Banda”, do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda.


Página 158: “ Nel mezzo del cammin...”

Verso d‘A Divina Comédia’ de Dante Alighieri.


Página 158: “ Lembro que papai tinha um livro - A Chave d’Os Lusíadas. Com ele nas mãos, ficava fácil entender ‘as armas e os barões assinalados.’ “.

Versos d‘ Os Lusíadas’, do escritor português Luiz de Camões;


Página 178: “ - Basta, guerreira sem lustre! Assaz suaste.”

Último processo intertextual do livro. Nele a autora cita um trecho literal do poema ‘I Juca-Pirama’, de Gonçalves Dias.


2.2 – ALUSÃO:

Página 21: “ Vai, Carlos”
Alusão a um fragmento de verso do ‘Poema de Sete Faces’, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Página 59: “ Há lembranças que doem. Ou amargam que nem jiló?”
Alusão à música “Saudade”, de Luíz Gonzaga.

Página 59: “Quasímodo! Ele era Quasímodo e me olhava como Quasímodo olhara Esmeralda”.
Alusão às personagens do Livro “O Corcunda de Notredame”.

Página 85: “ Narizinho ria de mãos dadas com Emília. Vamos, Flô. Toma o pó, Flô. O pó de Pirlimpimpim.
Do alto, eu via o sítio, as velhas mangueiras e pensava que queria voltar para a mamãe.
Mas queria também continuar voando, sem medo. Tudo tão bom... E a Emília ria. Vem, boba.”

Alusões ao livro ‘O Sítio do Pica-Pau-Amarelo’ do escritor Monteiro Lobato.

Páginas 86/87: “ Um dia encontrei na estante do vovô uma coleção de livros encapados de pelica amarela. Eram todos de Alexandre Dumas. Diu-má, me disse o vovô.

Aí, com d’Artagnan servi ao Rei e à Rainha da França. Odiei o Cardeal Richelieu, fui amiga de Athos, Porthos e Aramis (Atôs, Portôs e Arramis). Cavalgava com eles de Paris ao Port de Calais. Frequentava tavernas e bebia em copos de estanho.”

Alusões nítidas da autora ao livro ‘Os Três Moqueteiros’, do francês Alexandre Dumas;

Página 131: “ Usaria luvas brancas, farda de gala e levantaria bem a cabeça, orgulhosa de levar o símbolo augusto da paz.”

A autora faz alusões ao desfile de sete de setembro e ao verso do Hino à Bandeira do Brasil: “Salve símbolo augusto da Paz”.

Página 158: “Até parece sinal de velhice. Como que o velho dizia Na voz do velho Casmurro? Atar as duas pontas da vida?
As referências aqui feitas pela autora remetem-se a D. Casmurro, do mestre, como bem ela evidencia, Machado de Assis.

Página 158: “Ariadne, quero conduzi-lo neste labirinto?”

Alusão ao mito grego do Minotauro. Conta a lenda que a bela Ariadne, para salvar seu amado Teseu das garras do minotauro que habitava o labirinto de Creta, deu-lhe um novelo de lã. Desenrolando-o à medida que penetrava no labirinto, o herói seguiu o fio para dele sair após matar o monstro.

Página 178: “ Já me sinto voando. Emília, o pó, para onde me levará?
Lá...os corpos retorcidos do Inferno de Dante?
A ará já não repetirá seu mavioso nome?
Neste excelente intertexto, Angela Gutiérrez referencia-se consecutivamente a três obras literárias diferentes. O desenvolvimento deste parágrafo, evidencia, na bagagem literária da autora, um amplo domínio de conhecimento e aplicação das técnicas intertextuais propostas por Júlia Kristeva.

Na primeiro linha, novamente temos “O Sítio do Pica-Pau-Amarelo’’, de Monteiro Lobato; na segunda, outra vez “A Divina Comédia” de Dante e, na terceira, o romance “Iracema”, de José de Alencar.

2.3 – VERBALIZAÇÃO:

Partindo do princípio de que a linguagem cumpre um papel estritamente social, nós, posicionando-nos na qualidade de interlocutores, ao ouvirmos e/ou lermos acerca de algo, constatamos que essa função social foi realmente cumprida, executada. Imergindo um pouco mais além no tocante a essa análise, esse caráter coletivo da linguagem faz-nos crer que um discurso, independente da maneira que for proferido (verbalizado, não verbalizado, dramatizado, enfim), manifesta-se como produto de outros discursos, ou seja, parte da enunciação (de quem o proferiu) o fato de que o sujeito (no caso, o enunciador) se apoia, subsidia-se em algo já dito, já falado, já conhecido. Vale afirmar, dessa maneira, que ele faz disso um objeto maior para, por meio do posicionamento que assume, reiterar, refutar (debater), reafirmar, reformular, entre demais procedimentos. Vejamos exemplos:

Página 16: “No início do corredor, por uma porta costumeiramente entreaberta, via, de relance, a sala de visitas e a biblioteca. Cadeiras antigas com assentos de brocado e o piano de cauda recobertos por longas capas brancas. Imensas estantes de madeira esculpida e portinholas de cristal, repletas de velhos livros encadernados de couro. “Na parede, com seus tons pastéis, seus olhos de mistério e seu sorriso indecifrável, uma cópia fiel da Monalisa de Leonardo da Vinci.”

2.4 – PARÁFRASE e/ou PARÓDIA:

Página 85:
“ - Barbosa, e ele só roubava dos ricos?
Flô, isso eu não posso garantir. Vi ruma de gente se queixando, e era rico, e era arranjado, e era pobre. Pode que uns se queixavam de barriga cheia.

Pra mim, Barbosa, ele tirava dos ricos para dar aos pobres.
Flô, testemunhei isso, não.
Mas que era corajoso e valente...
Lá isso era.”

Aqui, a autora utiliza-se da técnica de paráfrase de forma bastante hábil. Em discussão com o amigo Barbosa, Flora faz questionamentos sobre a vida do cangaceiro Lampião, comparando-o à lenda britânica de Robin Wood, o bom ladrão que roubava dos ricos para dar aos pobres.

3 - CONCLUSÃO
Ao final de nossa análise, constamos inúmeros processos intertextuais n’O Mundo de Flora. Nele, Angela Gutiérrez, além de utilizar-se habilmente das técnicas propostas por Júlia Kristeva, lança mão, ainda, de uma escrita propositadamente fragmentada, denotando o emprego de uma outra técnica amplamente utilizada pelos romancistas atuais: o Fluxo da Consciência, de Robert Humphrey.

Com um estilo suave de narrativa, a autora introduz o leitor num mundo repleto de reminiscências fragmentadas, demonstrando grande habilidade na utilização conjunta das técnicas de Intertextualidade e Fluxo da Consciência, sem jamais perder o fio da trama. Esta habilidade pode ser facilmente constatada quando encadeamos os processos intertextuais de forma cronológica. Ao fazermos isso, verificamos que eles caminham sempre em direção ao processo de crescimento e amadurecimento da menina Flora, personagem principal da obra. Se aprofundarmos mais ainda esta análise, poderemos descobrir as datas em que situam-se as intertextualizações, conseguindo através delas, montarmos o quebra-cabeças espaço-temporal proposto pela autora.

Contudo, a proposta maior deste estudo foi localizar, listar e especificar o maior número de intertextualidades encontradas no romance, não configurando-se, portanto, objetivo do presente estudo o aprofundamento analítico ao qual acima nos referimos.

Por fim, é necessário evidenciar que, como todo estudo acadêmico sério, a presente análise não teve a pretensão de esgotar a catalogação dos processos intertextuais n’O Mundo de Flora. Até mesmo porque, em se tratando de um estudo voltado para a intertextualidade, esgotar as fontes de pesquisa torna-se ato quase impossível, uma vez que cada leitor possui seu próprio “acervo” cultural, o que evidencia a descoberta de inúmeros novos processos intertextuais, dependendo, como já dissemos, do embasamento cultural de cada novo leitor que prestar-se à leitura do romance em questão.

A intertextualidade fala uma língua cujo vocabulário é a soma dos textos existentes. Basta uma alusão para introduzir no texto centralizador um sentido, uma representação, uma história, um conjunto ideológico, sem ser preciso falá-los. O texto de origem está lá, virtualmente presente, portador de todo o seu sentido, sem que seja necessário enunciá-lo. Como diz Nancy Maria Mendes “A identificação da intertextualidade depende da extensão de leitura que se tenha. Quanto mais lermos, mais nos será possível perceber a presença de uns textos em outros e maior será a nossa compreensão de leitura.”

NOTAS
1. KRISTEVA, Júlia. Ensaios de Semiologia. Trad. Luiz Costa Lima, RJ, Ed. Tijuca, 1971.
2. GUTIÉRREZ, Angela. O Mundo de Flora. Fortaleza, CE, Ed. UFC, 1990.
3. GUTÉRREZ, Angela. Op. Cit.
4. HUMPHREY, Robert. O Fluxo da Consciência. S.P., McGraawhill do Brasil, 1976.
5. MENDES, Nancy Maria. Intertextualidade: Noções Básicas. In:Teoria da Literatura na Escola (org.), UFMG/FALE/ depto. De Semiótica e Teoria da Literatura, Belo Horizonte, MG, 1992.
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*Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor, ensaísta e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Toda palavra minha - CHICO ARAUJO


Poderá até parecer algo profundamente estranho, mas esse monólogo ocorreu. Dois amigos, sentados frente a frente, um bar acolhendo-os, cerveja nos copos se enchendo e reenchendo. Atenção e tensões em alternância. Sem desistência de nenhum, até o ponto final...
Toda palavra minha é um gesto meu de enfrentamento de minha realidade, que é única. Pessoal. Intransferível.
Todo verso construído, todo parágrafo desenvolvido é uma possibilidade revolucionária de me significar e permanecer existente. Resistente. Resiliente.
É pela palavra e é com a palavra que me substantivo.
A um só tempo criadora e criação, ela me tece meus pormenores, meu âmago, meus extremos.
Ao mesmo instante, conflito e solução, pensamento e revelação, o solo e a imensidão. Tatear e superar; superação e involução.
Silêncio e grito, grito e silêncio. Achados e perdidos. Invento, invento-me, desconstruo-me íntegro a ela; desinvento, desinvento-me, reconstruo-me amalgamado nela. Sou e não sou – concreto e abstrato, subjetivamente implícito, um esgueirar-se entre o sim e o não.
Algumas vezes dá vontade de falar, mas emerge, abruptamente, um abismal desejo de nada dizer. Mais ou menos pelo seguinte ponto - sem exatamente de equilíbrio: o que pretendo dizer será compreendido como deveria ser entendido? Presunção minha? Arrogância? Não sei. Receio, com certeza.
Ela, a palavra, quer e não quer se revelar. Ilude-me, em seu ruinoso jogo de esconde-esconde de sentidos.
Uma palavra certa, se certeira, pode acolher; também pode lançar sua ideia – e mesmo alguém – ao limbo, em sentido reverso, oposição tenaz, débil, apequenação.
Eu garimpo palavras em universos vários, na pretensão de ser preciso, certeiro. O problema maior da garimpagem é que nem sempre a bateia se encontra com a riqueza. Garimpo... teimoso, em repertórios móveis... refratários...
Repito, toda palavra minha é um gesto meu de enfrentamento.
É um embate.
É formação, então é gêneses, em qualquer dia, em algum dia.
Em algum instante preciso. Meu "instante já!".
Meu tempo, preciso; a palavra sendo, acaba, acaba sendo.
Eu bem no meio – minha existência consistente em momento líquido.

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Chico Araujo publica toda quarta-feira aqui no Evoé! O título "A interrogação para mais adiante..." foi escrito entre 2 e 3 de janeiro de 2018. Leia mais Chico Araujo no blog Vida, minha vida...

Divagações em busca de um eu - Chico Araujo*


Costumo falar a quem me pergunta sobre como se deve iniciar um texto, com que palavra ou expressão – principalmente a alunos –, que, honestamente, não sei.
Ante o espanto do inquiridor, explico que quem verdadeiramente sabe como dizer o que quer dizer é aquele que efetivamente está querendo dizer, ou seja, o autor do texto (ele, portanto), uma vez que a motivação para a escrita vem do interior de cada um. Aquele que quer dizer algo – oralmente, ou pela escrita, ou por qualquer outro meio de expressão – deve ter plena consciência do que quer expressar, porque deve expressar e a quem vai expressar.
Nesse exato momento, associo esse meu raciocínio, essa minha maneira de pensar – não originalmente minha, pois advinda de estudos em áreas do conhecimento referentes às linguagens –, ao que diz Pierrakos (2007, p. 21) acerca de "O anseio realista": "O anseio é realista quando você parte da premissa de que a pista para a realização deve estar em você; quando você deseja descobrir as atitudes que o impedem de viver a vida de uma maneira plena e significativa; quando interpreta o anseio como uma mensagem oriunda do âmago do seu ser interior, mensagem essa que o dirige por um caminho que o ajudará a encontrar o seu verdadeiro eu.".
Essa visão tem forte repercussão em matérias pertinentes à Psicologia. Para a autora, o que torna possível alguém viver de maneira plena e em paz consigo mesmo é esse alguém encontrar nele mesmo as condições adequadas para esse viver. Encontrar interna e profundamente o que permita o estado do "viver melhor", o "viver uma vida significativa" é algo inevitavelmente necessário.
É importante perceber que o conhecimento profundo de si mesmo possibilita a aceitação do "eu" em sua essência; essa aceitação poderá ser a própria condução à transformação adequada e necessária de um "eu" debilitado, frágil, que não se aceita, para um "eu" que se encontra ao deparar-se com seus limites e entendê-los como fundamentais à sua transformação em busca do alcance de sua felicidade, que somente será alcançada se viabilizada a experiência do estado de paz.
Por partes, então. A primeira: “... a pista para a realização deve estar em você”. Em outras palavras, qualquer ação, qualquer passo que desejemos dar para o alcance de algo melhor em nós terá como ponto de partida... nós mesmos! Muitas respostas, então, a respeito de questões profundas as quais nos acompanham encontram-se dentro de nós, em estado adormecido, no plano inconsciente.
Como despertá-las? Num “escavar” denso, quase nunca sozinho. Contudo, sozinho ou acompanhado, quando nos deparamos com a chama que arde em nós a ponto de nos dar a força para viver, para existir, apertamos a mão da “pista” existente e nos transformamos, pois tocamos nossa realização e a realizamos. Não é simples nem simplório o aqui dito; creio ser uma interpretação bastante viável, aguardando os acréscimos que venham.
Alcançar / Tocar essa “pista” nos leva à segunda parte do que aqui trato e certamente nos põe diante da possibilidade de superar, vencer, suplantar aquilo que nos segura nas negações, tal qual grilhões inviabilizam os movimentos de quem esteja agrilhoado. Eis um acontecimento restaurador e edificante, “... quando você deseja descobrir as atitudes que o impedem de viver a vida de uma maneira plena e significativa”, como sugere Pierrakos (2007, p. 21). “Tocar” a “pista” significa, nesse caso, deparar-se com caminhos outros – decerto nunca dimensionados antes – com liberdade tanta a ponto de trânsitos sem empecilhos. Liberdade para ser inequivocamente um “eu” valoroso e íntegro.
Nesse diapasão, concebido e emancipado esse “eu” bravo e íntegro, encontra-se o ser consigo mesmo, pois interpretou “... o anseio como uma mensagem oriunda do âmago do seu ser interior, mensagem essa que o dirige por um caminho que o ajudará a encontrar o seu verdadeiro eu.".
Entendo que as linguagens e suas várias possibilidades de validação de expressão contribuem fortemente para esse achado e encontro, uma vez que “o homem é um ser de linguagem”, conforme nos sinaliza a Filosofia. Estou convicto de que quanto mais palavras eu ponho aqui nesse texto, mais me expresso, mais me descubro, mais me revelo, mais me encontro, mais me integro.
E talvez não haja mais divagações... por agora.
NOTA DE FIM DE TEXTO
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1. PIERRAKOS, Eva. O caminho da autotransformação. Tradução de Euclides L. Calloni e Cleusa M. Wosgrau. São Paulo: Cultrix, 2007. 

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* Chico Araujo publica toda quarta-feira aqui no Evoé! O título "Divagações" foi escrito entre 1 e 10 de janeiro de 2018.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Crônica de um ateu - Túlio Monteiro*



Areia, roupa branca, se o champanhe “estourar” é sorte! Se não: ano ruim vem por aí. Macumbeiro misturado com católicos, “crentes”, ateus, dizimistas, anjos e demônios. Uma Babel, cara! “Ruma” de gente pulando sete ondas...essa miscigenação, rapaz, me extasia. 18 MInutos que começam coma a mesma sílaba de MIlhões poluindo o ar e ninguém diz nada.
 Não!
Haja Selfie nas luzes coloridas para no ano que vem ser tudo igual.
            Passei o ano e casa, com a família, e teve tudo isso explicitado nesse palimpsesto[1] chamado televisão, digamos e sejamos sinceros, está cada vez melhor em sua velocidade de transmissão.
Mas o grande barato, mesmo é a marcação dos anos nas diferentes regiões do Mundo. Vejamos só, de maneira sucinta como são essas demarcações que aqui, pelo Ceará, a gente chama de esculhambações. Um negócio de doido. Mas vou buscar uma linguagem mais amena, para ficar bonita e atrair você, caro(o) leitor(a). Leiamos:
Nosso calendário é apenas um código. Um sistema divido em três partes (dia/mês/ano) que permite nos localizarmos no tempo-espaço. O calendário de 365 dias que usamos é o resultado científico de calcular quanto tempo a Terra leva para completar uma rotação em torno do Sol.
Enquanto os dias e meses são baseados em forças gravitacionais do planeta, e, assim, fundamentados na realidade, o terceiro aspecto das datas - o ano - é uma bagunça total. Por que consideramos 2018 o ano que estamos vivendo atualmente? Por que marcamos o início do ‘tempo’ moderno com o nascimento de Jesus (logo a denominação Antes de Cristo (a.C.) e Depois de Cristo (d.C.) depois de algumas datas). Mas disso você já sabia. E também já sabe que a Terra não tem só 2018 anos. Na verdade, nosso planeta tem cerca de 4 bilhões de voltas em torno do Sol.
"Em nenhum momento na história da humanidade houve um único sistema de datação uniforme que foi compartilhado por todos," diz o professor de História Antiga da Universidade da Califórnia-Berkeley, Dr. Carlos Noreña, a Pacific Standard.

ANO UM GREGO

          Não vamos nem discutir o Ano Zero, visto que a disputa pelo Ano Um ocorre antes mesmo do conceito de zero existir. Os gregos foram os primeiros a tentar datar o Ano Um. Eles pesquisaram em seus arquivos e decidiram que o Ano Um deveria estar ligado a um evento de importância cultural. Portanto, o Ano Um se estabeleceu no primeiro ano que os Jogos Olímpicos foram realizados. Para nós, isso é 776 a.C., mas para os gregos é o Ano Um.

ANO UM ROMANO

            O Império Romano também teve seu próprio sistema de datas. Eles decidiram que o Ano Um também deveria estar ligado a um evento importante. E o Ano Um romano coincide com a fundação da cidade de Roma. No nosso calendário, Roma foi fundada em 753 a.C. "Os romanos não impuseram seu sistema de datas. Visto que eles eram tão poderosos e influentes que as pessoas aderiram ao sistema de calendário porque era conveniente”, explica Noreña.

OUTROS ANOS UM

           Enquanto os sistemas grego e romano eram os dominantes, surgiram outras culturas com diferentes Anos Um. O Império Bizantino começou seu primeiro ano no que foi considerado o ano de criação do Império (5509 a.C.). A Igreja de Alexandria começou seu Ano Um no que conhecemos como 284, para coincidir com a ascensão do imperador romano Diocleciano no poder.
O calendário sumeriano reiniciava o Ano Um a cada novo Rei. Calendários circulares, como o Maia, que começou no que agora é 3114 a.C., completando um ciclo e começando de novo em 21 de dezembro de 2012. (Quando muitos pensaram que essa era a data do fim do Mundo).

ANO UM CRISTÃO (NOSSO ANO UM)

          Dentro deste caos de calendários, um humilde monge chamado Dionísio Exiguus apareceu. Ele se perguntava por que estavam datando as coisas pela fundação da cidade de Roma. Não fazia sentido nenhum para o monge. Então, ele decidiu encontrar um evento mais importante para contar o Ano Um. Naturalmente, sua escolha foi o nascimento de Cristo.
Dionísio tomou seu ábaco, triturou alguns números, e descobri quando Jesus nasceu. Ele escreveu uma carta a um bispo nomeado Petrônio detalhando seus planos para o Ano Um, designando-o como Anno Domini, que se traduz como “o ano do Nosso Senhor."
Representação de Jesus Cristo (Foto: Criative Commons)
 Porém, Dionísio esqueceu de levar algumas coisas em consideração. "O Evangelho de Mateus afirma que Jesus nasceu no tempo de Heródes, o Grande, que morreu em 4 A.C.", escreve David Ewing Duncan, em seu livro Calendar: Humanity's Epic Struggle to Determine a True and Accurate Year (Calendário: a luta épica da humanidade para determinar um ano verdadeiro e preciso).
 Portanto, o nascimento de Cristo deve ter ocorrido antes dessa data. Outros Evangelhos e fontes históricas sugerem datas que variam de 7 a.C. a 7 d.C., embora a maioria dos historiadores aceitem 4 a.C. Isso significa que o ano 1996 foi, provavelmente, o verdadeiro ano 2000 no calendário Anno Domini, de Dionísio.
O conceito de Dionísio não foi aceito tão facilmente. Os últimos grandes redutos foram Portugal, que adotou o sistema só em 1422, e o Império Russo, que cedeu em 1700. No século XIV, a maioria dos Estados estavam de acordo. É importante ressaltar o conceito de a.C. só foi introduzido em 1627, por um astrônomo francês. Ele argumentou que o mundo existia antes do Anno Domini.

E SE O NASCIMENTO DE JESUS NÃO FOSSE CONSIDERADO?

Existem duas possibilidades para esse caso:
  1. Nós ainda estaríamos usando o calendário romano. Ele foi o mais difundido na época. Nesse cenário, estaríamos vivendo no ano 2768.
  2.  Sem Jesus, outra religião surgiria para preencher o vazio, como se isso já não houvesse ocorrido, onde apenas uma possibilidade distinta seria o Islã, já que seu calendário, ainda em uso em alguns países muçulmanos, começa em 622, o ano de emigração do profeta Maomé de Meca para Medina, um evento conhecido como Hijra. Cenário no qual estaríamos no ano de 1393.

No fim e ao cabo, amigos(as), ao meu ver O Ábaco ainda é mais perfeito que o Big-Ben ou o meridiano de Greenwich, nossos marcadores de tempo mais precisos, revelando que o Tempo, o senhor de nossas existências, não se importa muito como o viveremos. Marca ele, sim, o indelével...reservando-nos àquela que nunca falta à última aula de nossa história: A MORTE!

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[1]Palimpsesto -  papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro.

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*Túlio Monteiro - escritor, biógrafo, pesquisador, revisor, ensaísta e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A interrogação para mais adiante... - Chico Araujo*



Uma verdade: sem temor ele construiu sua narrativa.
Mas ela não se revelou de imediato. Essas coisas de falar, dizer exatamente o que se pensa, nem sempre são muito fáceis, de fluidez tranquila. Às vezes um discurso se organiza bem na cabeça, no entanto não se projeta facilmente.
Acrescento a você que naquele momento em que olhava para a mulher, mesmo acreditando já estar com toda sua fala resolvida em sua cabeça, Arguto, em verdade, ainda refletia, refletia, refletia... e, mesmo sem querer, afligia sua mulher, que agora só aguardava a fala do marido.
Por onde começo a contar essa história?
Eu, por minha observação já de há algum tempo, já sabia não ser apenas por intuição que a esposa compreendia haver algo diferente na vida deles. O marido estava com aquela cara fechada já conhecida, olhar meio que distante, mesmo que fitado nela, respiração alterada, movimentos descontínuos e alternados nas pernas, lentidão no ato de beber o café. Esses sinais nunca se somavam para boas novas. Isolados, não preocupavam; conjuntos, em geral faziam arrebentar o sossego, fragmentando-o em tantos pedaços que quase não se conchegavam depois em vantagem do conserto.
Pelo peso carregado nos passos que dera minutos antes até sentar-se na poltrona, pelo semblante fechado, pelo silêncio, por olhar para ela com visão meio turva, sem mesmo vê-la, ele já alcançara a consciência de que certamente ela já notara a tempestade com muitos trovões em sua cabeça. Ela, silente e súplice, olhava-o, buscando vê-lo. Ele precisava dizer algo.
Por tanta vida juntos, ele já sabia as estratégias a serem postas em prática em situações como aquela: antes mesmo de entrar em casa, chegar-se à esposa, olhá-la com olhar firme, sincero, dar-lhe um selinho – já cumprira essa sequência; entrar na casa, sentar-se no sofá, receber um copo de água gelada e uma xícara de café fresquinho. Depois de sorver aqueles carinhos, só havia uma coisa a ser feita: falar.
Naquele momento, porém, Arguto realmente não sabia por onde começar o relato para a mulher a respeito de tudo o que acontecera naquele dia, quem sabe até um pouco do que soube a mais de toda uma situação ainda incompreendida em sua totalidade e alcance, todavia inexorável. Era visível seu desconforto e seu cansaço. Terminou de tomar o café e ficou olhando a mulher um tempo, sem nada dizer – dois silêncios.
A tensão a crescer entre eles era já em sensação intensa, quase visível, bem perto do palpável. Arguto respirou fundo, pontuando sua aflição, mas não se demorou no silêncio:
- Preciso tomar um banho – declarou, enfim. Precisava pensar um pouco mais, até para compreender melhor, antes de falar – assim refletiu – toda a situação que lhe envolvera desde o início da manhã. Levantou-se e foi-se, deixando a mulher na mudez, dentro de pensamentos.
A esposa, Sofia, ainda permaneceu, alguns minutos, sentada, silente, atenta. Intranquila, dignamente esperou o tempo certo da narrativa do marido. Ela também sabia que nada acontece antes do momento de acontecer.
Quando voltou do banho, Arguto viu a mulher sentada no mesmo lugar, em posição e silêncio que poderia jurar serem os mesmos do instante em que se ausentara; mas era apenas impressão. Ela se levantara, com toda a certeza, pois de sobre a mesa da cozinha se espalhava pela casa o cheiro bom e fumegante da sopa de legumes com carne moída que somente ela conseguia fazer.
Foram os dois para a cozinha e ele serviu para si o primeiro prato fumegante. Ela não o quis acompanhar naquele instante. Queria saber dos acontecimentos. Ele, entre uma colher e outra de sopa, foi dizendo o que sabia, porque observou, porque lhe contaram. Sem a tranquilidade desejada, enfim, ele apresentou sua narrativa.
- As coisas mudaram muito no trabalho de semana passada para hoje. Mudaram de um jeito que eu não consegui ainda entender tudo. A oficina não existe mais, foi fechada. O pessoal que trabalhava comigo não sei para onde foi, mas tô achando que houve demissões, de alguns, pelo menos; outros talvez tenham sido aproveitados em outro setor, mas não tenho certeza. Não vi mais ninguém hoje. Eu fui mantido, em um novo cargo, com mais responsabilidade, passando a ter contatos com pessoas de fora da empresa. Meu emprego está garantido, pelo menos por enquanto. Não entendi ainda porque me puseram nessa nova função e não sei se terei condições de ficar nela.
Arguto foi detalhando para sua companheira de tantos anos as alterações em acontecimento na empresa e revelando sua aflição quanto às incertezas. Ela escutou tudo no mais perfeito silêncio, na mais completa atenção.
Acrescentou ainda ter sabido do caso de um rapaz de outro setor, muito comprometido, dedicado, acostumado a fazer horas extras sem criar problemas que foi dispensado porque o chefe dele, novato na empresa, não gostava do jeito como ele trabalhava. Na hora da dispensa, o chefe teria dito ao rapaz saber que diziam ser ele muito competente, mas que, na qualidade de chefe, avaliava-o como alguém lento, desconcentrado, muito conversador, que demorava muito na hora do almoço, mesmo já tendo encerrado a comida no prato. Para o chefe, isso era uma soma de falhas. Não lhe interessava trabalhar com alguém que tivesse essas características. Por isso a demissão. A parte final da conversa teria assim transcorrido:
- O senhor está me demitindo por essas coisas que acabou de me dizer? São mesmo motivos para demissão?
- Para mim, são.
- Vou fazer de conta que o senhor tem a mais completa razão no que está dizendo. Mas pergunto: o senhor não poderia me ter falado sobre esses meus "defeitos" antes, até para me dar chance de me corrigir?
- Não é do meu estilo de gestão agir dessa maneira.
- O senhor, então, não acha que precisa de alguma capacitação sobre como manter as relações interpessoais? Talvez algum curso de recursos humanos? Algum treinamento sobre gestão de pessoas?
- Prometo que pensarei sobre isso. No futuro. Por agora, recomendo que passe pelo setor pessoal para formalizar sua dispensa.
Arguto contou tudo isso e se calou.
A esposa Sofia o ouviu na mais absoluta mudez. Ao entender haver terminado aquela fala angustiada, levantou-se, foi ao fogão, serviu-lhe um pouco mais da sopa reparadora. Antes de sentar-se novamente frente a ele, passou-lhe a mão pelos cabelos, num gesto de carinho acolhedor.
- O mundo, Arguto, como nós o conhecemos, deixa de existir a cada novo segundo; ele está se dissolvendo. Como exatamente ele vai ser, não podemos saber hoje.
- Eu soube também, Sofia, no finalzinho do expediente, quando já estava na saída do prédio, quase na calçada, de outro caso estranho, com outro rapaz que também nunca vi, nunca trabalhou comigo. Ele recebeu uma proposta de trabalho lá num setor da empresa que trabalha com a propaganda dela. Era um contrato de trabalho por uns dois meses ou três. Estavam precisando de gente como ele lá porque aumentou a necessidade de maior propaganda dos produtos da empresa. O rapaz aceitou o trabalho, exigindo todos os direitos pertinentes, salário compatível com os trabalhos a serem feitos, tudo mesmo que tivesse direito. Disse que começaria já na manhã seguinte. O diretor de lá que falou com ele disse ser necessário ele começar a trabalhar de imediato, mesmo já sendo de noite, porque era muito serviço mesmo para ser feito. Aí o rapaz disse não ser mesmo possível, já eram sete da noite e ele já tinha compromisso. O diretor insistiu dizendo preferir que começasse o serviço naquela noite mesmo, que tinha pessoal já em hora extra, mas que precisava da experiência dele, do conhecimento dele, porque poderiam fazer com que os outros trabalhassem com maior rapidez. O rapaz não aceitou mesmo e somente começou no dia seguinte. Aí ficou tudo certo naquele tempo, durante os três meses foi tudo dentro do acordo. Nada a mais, nada a menos. Quando o tempo contratado estava acabando, veio novo convite para ficar mais um tempo, pois a empresa tinha melhorado muito com ele lá.
- E ele ficou?
- Ficou porque disseram que havia necessidade do trabalho dele que era muito qualificado. Ele aceitou continuar lá por que teve a sensação de que estivesse sendo valorizado naquilo que sabia fazer de melhor. Mas se enganou. Nos meses seguintes, parece que mais uns três, o que foi combinado antes foi esquecido pela empresa. O rapaz hoje tá brigando na justiça pra receber os outros três meses e outros direitos que ele acha que tem. A empresa tá dizendo que não deve nada a ele.
- E quem tem razão?
- Não sei. Sei só que me contaram isso. Parece que isso tá acontecendo, sabia? Sabia? Tá acontecendo. Não é coisa que esteja só em novela ou filme. Está acontecendo na vida real. Preste bem atenção ao que tô dizendo: Tá acontecendo! É real.
- Tudo isso está lhe angustiando.
- Por mim e por muitos outros. Não saber o que acontecerá no futuro é algo natural. Não ver perspectiva quanto a ele, isso é devastador.

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Chico Araujo publica toda quarta-feira aqui no Evoé! O título "A interrogação para mais adiante..." foi escrito entre 14 e 26 de dezembro de 2017.