quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Chico Araujo - A cidade muda, a reboque da sociedade...


Transitei pelo Centro da cidade há poucos dias. Novamente me vi em um lugar confuso, desorganizado, em semelhança a muitas regiões centrais de diversas metrópoles. Natural, dirão muitos. As cidades se modificam com o passar do tempo, com a mudança das sociedades que habitam nelas. Não posso discordar. De fato, à medida que o tempo transcorre, à medida que as gerações vão sucedendo as anteriores, naturalmente o antes se reestrutura, se renova no depois.

O que acontece é que, com o passar do tempo, as mudanças vão se impondo e nos impondo cotidianos diferentes.Historiadores, antropólogos, sociólogos sabem bem disso. Os economistas também. Os médicos, idem. De verdade, creio que todos nós sabemos.

São tantas alterações a ocorreram em rapidez constante que também acredito não darmos atenção necessária a elas, porque, por algum motivo, é-nos melhor não nos darmos conta. Como conviver com algo que ontem era considerado importante e que hoje nada significa? Em contrário, como conviver com algo que ontem era totalmente desimportante, mas hoje se destaca como fundamental e, por isso, deve ser aceito e seguido por todos?

Exemplifico. A História da educação brasileira pontua que já se considerou de muita valia o processo ensino-aprendizagem, para a juventude, de temas nas áreas do conhecimento filosófico e sociológico. Hodiernamente – e mais uma vez – há quem defenda a nulidade desses estudos, alegando ser necessário à formação escolar nenhum ranço de ideologia.

Estranho, não? Como retirar da educação as ideologias de que ela precisa até mesmo para manter-se existindo? Seria mais apropriado tratar-se a questão como “troca de ideologias”?

Creio ser perfeitamente compreensível a noção de que “ideologia” não se limita, por seu próprio conceito, a questões meramente partidárias, como querem fazer crer discursos construídos em alguns setores da sociedade e difundidos por toda ela. Inclinações ideológicas não são adquiridas apenas nas agremiações políticas – embora nestas tais questões sempre abundem –, porém se constroem a partir das experiências cotidianas na família, nas comunidades diversas, nos ambientes acadêmicos. A escola se caracteriza por ser um ambiente acadêmico. Não se pode retirar dela seus aspectos ideológicos; contudo, eles podem ser trocados, substituídos. Cabem duas perguntas, pelo exercício de raciocínio: Por que e Para que trocar ideologias?

São tantos aspectos para observar e compreender que nessa dinâmica veloz hodierna nos perdemos, ficamos perdidos de tal forma que, no meio da confusão, qual a condição de decidir "isso vale a pena", "isso deve ser descartado"? Devido às nossas fragilidades, findamos "partidos", muitas vezes sem perspectiva de alcançar uma boa decisão, uma decisão que se revele justa, portanto, adequada.

Outro exemplo, aparentemente bem mais simples. Tempos atrás, comum era a ação de uma pessoa jovem ceder sua cadeira em um coletivo a uma pessoa de idade mais avançada que a sua. Era banal e tão corriqueiro que não havia necessidade alguma de o mais velho pedir o lugar; em se aproximando de uma cadeira ocupada por jovem, de imediato se dava a vacância do assento em favor do mais velho. Sem qualquer constrangimento, irritação, afobação de quem quer que fosse. “Tudo na mais perfeita ordem, tudo na mais santa paz”. Era uma simples questão de boa educação (e isso nunca se aprendia em escola, mas em casa, na família).

Nos dias que acontecem no tempo de hoje, essa noção de afeto e respeito cidadão não se evidencia em muitos jovens; aos poucos, estes estão perdendo a deferência pelos mais velhos. Em verdade, dão sinais de não se importarem mais com ninguém, inclusos aqui os pais, os irmãos, os avós, os familiares, enfim; de uma maneira geral, se não reconhecem as pessoas de sua família como merecedoras de sua atenção e consideração, como poderão vislumbrar nos desconhecidos a importância merecida? Com que desejo atencioso eles concederão lugar em uma fila? De que forma conseguirão enxergar no chão de um estacionamento um símbolo pintado indicativo de vaga para idoso? Por qual motivo se colocarão em atitude de espera da saída das pessoas de dentro de um elevador para que somente após essa saída eles possam entrar?

Os comportamentos individuais interferem nos comportamentos coletivos, ao mesmo tempo em que as condutas coletivas intervêm nas individuais. A repercussão deles possui “efeito bumerangue”, então, e à medida que vão se popularizando, atuam e modificam o que está posto, constituindo em um momento “agora” algo não existente “ontem”. É algo contínuo, um movimento ininterrupto, silencioso, quase imperceptível, atuando sobre a cultura em geral de um povo e repercutindo nele mesmo e nas instituições.

E “de repente, não mais que de repente”, quando se percebe, “Nada será como antes, amanhã”.

_____________
Chico Araujo publica todas as quartas aqui no Evoé! "A cidade muda, a reboque da sociedade..." foi escrito entre 26/07 e 05/08/2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, minha vida...

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

ÀS PESSOAS DE ALMAS BEM PEQUENAS, REMOENDO PEQUENOS PROBLEMAS - Túlio Monteiro

André Masson - "Gradiva", 1939.
Aquilo que sabem de nós mesmos e que temos na memória não é tão
decisivo para a felicidade de nossa vida como se pensa. Um dia
cai sobre nós aquilo que outros sabem (ou acreditam saber)
de nós 
– e então reconhecemos que isso é mais forte. É mais fácil
lidar com sua má consciência 
do que com sua má reputação.
Friedrich Nietzsche

Deu medo não foi? Pensou que era para você que eu estava escrevendo. Pois se assuste mesmo, porque o é, calhorda. Sim! Pasme! O escritor aqui acha que toda a humanidade é calhorda, inclusive eu e você, pessoa nefasta que ataca de boa gente sempre que vê alguém em apuros. É fato! É estudo feito! Toda caridade quer de volta um muito obrigado ou um Deus lhe pague! Fico te devendo essa! Essas baboseiras que são ditas quando nos arrancam da pele e a pele de nossas necessidades às vezes básicas, como ir a um médico com consulta “arranjada” por um amigo que se propôs a falar com um grande outro amigo de um amigo dele para que você furasse uma fila. Hein, calhorda?! Estou falando contigo, fura-filas.

Nossa! Quem nunca olhou para uma fila e pensou: – se eu fosse amigo do gerente dessa merda eu não ficaria feito uma estaca parada aqui, em pé, lascando com minhas varizes que vão aumentando como insetos em volta da lâmpada. Estaria era na boca do caixa ou tomando um cafezinho na sala VIP do local. 

Todo ser humano que se preza quer ser, no fundo, mas no fundo mesmo, um calhorda. Alguns até pensam que não o são. Tenho até um ex-amigo que pensa dessa forma. Podemos acreditar nisso, nobre ledor? Estou te esculhambando e você ainda insiste em ler no que vai dar essa crônica maldita. Eu? Estou a rir-me de tua cara estupefada e olhos arregalados. Não! Ele não está escrevendo para mim. Sou amigo dele, me convidou até uma vez para ir a uma tal de Pasárgada, que eu, burro feito um poste nunca soube onde era. Disse-me que nos encontraríamos com um tal Manuel Bandeira por lá e ele recitaria coisas do arco da velha como:


Vou-me embora pra Pasárgada.

Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei (...)


E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

(Bandeira a Vida Inteira, 1986)

Ou ainda esse outro poema, de 1934, que fala de libertinagens, calhordas e suicidas. Não dele, mas do amigo Carlos Drummond:


EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS


Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
Que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,

bandeirantes e guerreiros,

sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.


A tarde pode ser triste

e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).


Teus amigos estão sorrindo

de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
Fosse a última resolução.

Não compreendem, coitados
que o melhor é ser pornográfico.

(Brejo das Almas - 1934)

Agora deu. Além de calhorda, descobri que você é também um libertino safado, desses que veem filmes pornográficos e sonham com as marmotas de Sade. Ora, e não é?! Senão vejamos: Nossa sociedade revela a existência de um discurso em que o ato sexual liga-se à revelação da verdade, à inversão da lei do Mundo, ao pecado carnal, ao anúncio de um novo dia e à promessa de uma certa felicidade. Essa reflexão evidencia que acabamos sujeitos ao que parece ser determinado como objetivo de vida. A algo que se por amor ou calhordamente não for praticado você está fora de sintonia, fora de moda, meu caro, minha cara ledora. Sem falar de e praticar sexo, você está deletado, descartado, execrado do Mundo que o cerca. Ridícula, não, essa briga do clitóris com o falo que nada fala? Milenar!

E como Drummond sabia dessas coisas de sexo para sobreviver e se dizer gente. Ele mesmo um calhorda em seus poemas, maltratando os castos e excitando os maníacos, os tarados, os desviados:


(...) Ao delicioso toque do clitóris,

já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.


Vai a penetração rompendo nuvens

e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue. (...)



Então a paz se instaura. A paz dos deuses, 

estendidos na cama, quais estátuas 
vestidas de suor, agradecendo 
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
“Amor - Pois que é Palavra Essencial”, (Brejo das Almas) - 1934


Já o Cristianismo pregou sobre a profanação do ato sexual, pois foi a religião quem deslocou a noção sagrada, ao qual insere-se a gênesis do erotismo. Disso nós sabemos tanto que a própria Bíblia Sagrada apregoa a traição entre parentes e consortes. Se não, como e por que o tão apregoado Noé não permitiu que seus filhos homens conduzissem esposas para a copulação e a não extinção da raça humana depois de 40 dias e 40 noites cuidando de casais de animais que até hoje não sei por que ele os salvou. Afinal para que servem duas baratas a não ser aos escritos de Kafka. (Risos cínicos do autor).

Uns poucos dois mil anos atrás encontrarmos um Jesus de Nazaré com suas vinte e poucas primaveras tendo sido mandado ao Mundo com todos os defeitos que qualquer ser humano da atualidade possui. Bebia vinho, confraternizava, adorava um discurso para vagas e vagas de desesperados por pão e peixes. E, de quebra, só resolveu se batizar aos 33 anos no Rio Jordão, assim mesmo por insistência de João Batista. Ah! E não esqueçamos de Madalena, seu (único?) amor terreno, a qual a devoção de ambos um pelo outro ainda hoje repercute comentários maliciosos sobre aquele homem que deveria ser santo, o Deus vivo, o filho do Criador a tomar conta de suas ovelhas.

(...)

Apesar das escrituras sagradas conterem personagens com histórias envoltas por elementos eróticos, através de um panorama ocidental, poderemos encontrar registros pornográficos significativos já na Grécia antiga. Seria o caso das histórias envolvendo as hetairas, ou “cortesãs”, musas que inspiravam grandes representantes do período, exercendo função social importante, dado que em alguns momentos até substituíam as esposas em eventos.

O mestre da comédia ateniense Ferecrates escreveu peças que mostravam todo o impudor das cortesãs e Êupolis, o criador da famosa comédia Autokylos, que conta a história de um jovem que se prostituía apoiado pelos próprios pais. Para o bom pesquisador a primeira obra-prima do erotismo antigo foi Lisístrata, de Aristófanes, que narra a história da greve de sexo instituída pelas mulheres atenienses até que seus maridos acabem com as lutas na guerra do Peloponeso para que houvesse paz. Também surgem na literatura os textos de Édipo Rei de Sófocles e Electra do dramaturgo grego Eurípides, do qual continham histórias de cunho sexual. E por aí vai.

Sinto que poderia verbejar sobre sexo explícito, mais retido ou, como costumam dizer, mais celibatário, durante mais umas dez páginas. No entanto, isso seria demais para os vossos esbugalhados olhos de calhordas que lá no fundo de suas mentes – para os que se deram ao trabalho de ler e tentar entender Moreira Campos – que, com Bandeira e Drummond formam a Santa Tríade de velhinhos safados sempre com olhos voltados às ancas brasileiras, nunca é de bom de tom esquecer o que profetizou Moreira Campos: O único compromisso da Literatura é com a vida. A força da vida está no sexo. Se você escreve sobre a verdade disso, não se preocupe, meu velho, com a moral burguesa. Não vale nada.

_______________
Túlio Monteiro - escritor, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Do egoísmo nosso de cada dia - Chico Araujo

A arrogância nossa de cada dia nos leva muitas vezes a agirmos como se fôssemos sozinhos no mundo, como se ao nosso redor não existissem pessoas que precisam ser vistas, respeitadas,
compreendidas em suas características e limitações. Ao desconsiderarmos esses aspectos como caracteres de fundamento nas outras pessoas, invalidamos também, em nós mesmos, os aspectos a nós peculiares, uma vez que, quanto menos reconhecemos o outro, tanto mais desconhecemos a nós mesmos.

Se "nenhum homem é uma ilha", nenhum "eu" é somente "um 'eu'". Há uma soma de muitos aspectos de outros "eus" naquele que vibra em cada um de nós e isso é algo a não ser desconsiderado, desprestigiado, desvalorizado. Quando alguém assim age, põe em evidência a exacerbação, como equívoco, de sua existência como um ser sem sociedade, isolado – e isso é algo de uma falsidade densa.

No entanto, a ação deliberada de se exacerbar, de se dar a maior importância em total detrimento da importância do outro, expõe não ignorância latente quanto ao fato da relevância do homem como ser social, mas sugere a intenção de apagamento do outro como ser de relevância também. Um descomedido “ego" invalida qualquer "álter".

Uma situação como essa desnuda certa incapacidade de se existir em convivência, junto ao outro, desenvolvendo atividades conjuntas. Havemos de nos perguntar: como viver em uma comunidade aprovisionando em si um espírito egoísta? Haverá respeito ao outro? Ideias de outrem serão consideradas? Necessidades alheias serão vistas?

Pessoas com características como as sugeridas aqui quererão sempre tudo para elas, mesmo que não necessitadas de tudo o que tenham. Não haverá, nelas, preocupações, se outros estiverem carecidos de um pouco do muito que elas tenham, pois para elas não existe o outro, não existe a carência do outro, uma vez que elas fazem questão de não o ver.

Nas profissões, quando algo assim ocorre nas empresas, o mundo corporativo sofre, debilita-se, e muitas vezes paga as penas relativas ao fato. Imagine-se um gestor de empresa que vê em seus colaboradores somente a capacidade, a força para a realização de determinado trabalho, fechando os olhos para o que tenham como traço de humanidade, de individualidade, de espiritualidade. Esses colaboradores adquirem, para o gestor, a condição de máquinas, e como tal precisam funcionar, sempre em benefício do funcionamento da corporação. Abstraídos de quaisquer condições subjetivas, as quais os poderiam compor como humanos, restaria a eles, colaboradores, no contexto apresentado, somente trabalhar, trabalhar, trabalhar... Em outras palavras: produzir, produzir, produzir...

Essa prática implicaria relação de desigualdade na qual os colaboradores se veriam em uma situação de subserviência anulativa de suas características pessoais em relação ao gestor, de tal maneira que possivelmente se resumiriam cumpridores de ordens somente, sem visualizarem para si qualquer condição de direitos.

Ora, nesse desequilíbrio relacional, a corporação perderia, pois possivelmente não se alcançaria a produção desejada, posto que, pessoas insatisfeitas, infelizes, desrespeitadas em seu local de trabalho não costumam render o que poderiam se estivessem tranquilas, satisfeitas, reconhecidas, felizes.

Nas relações interpessoais, quando alguém é posto em situação de desigualdade, de desimportância, é porque outro alguém precisa tornar essa existência ineficiente para que o primeiro esteja sempre em favor de seu subjugador. É algo doloroso para quem é posto abaixo; e vive uma dor não vista pelo subjugante.

Infelizmente, não é acontecimento incomum o fato de pessoas acreditarem ser superiores a outras e mesmo demonstrarem essa crença àquelas julgadas inferiores. Pode acontecer em uma relação de “amizade”, quando, por exemplo, um “amigo” considera o outro em todas as ocasiões nas quais observa algum ganho para si, pecuniário ou não, mesmo que o outro não tenha lucro algum. Há casos entre amigos em que um, dono de dada empresa, contrata, emprega o outro, passando, desde então, a explorar aquela mão de obra. Perde-se, a partir daí, a pura relação de amizade.

A partir de então, observa-se mudança de comportamento referente à relação de ambos. Se antes iam a determinados bares juntos, agora já não se verá a continuidade dessa parceria. Se anteriormente eram sempre muito alegres e brincalhões entre si, após a relação trabalhista ser estabelecida as brincadeiras já não serão constantes nem semelhantes a como ocorriam no plano precedente. O contratante, assim, entende que não pode ter muita proximidade com o contratado, acreditando haver na proximidade profunda prejuízos para as relações com outros empregados, talvez também com clientes e, quem sabe até para a própria empresa. Caberá aqui o adágio “Amigos, amigos, negócios à parte”?

Mas, o que importa? O que interessa?

Para o egoísta, “O trânsito é meu”. Também, “Quem for podre que se quebre”. Se “Motociclista eu sou, que se dane o ciclista”. Como “Dirijo automóvel, que se quebrem o motociclista e o ciclista...”. Como “Sou mais forte, que se quebre o mais fraco”. De uma maneira geral, pensa o egoísta: “Eu importo”. “’Eu’ importa”. Porque “Quero comprar comida, uma tapioquinha, paro o carro no meio da rua, faço o trânsito paralisar. É rápido. No máximo dois minutos”.

Por conta do egoísmo, não se vê o outro, seja ele quem for. Por causa do egoísmo, somente se percebe aquele que se caracteriza por “eu”. 

Além dele, nada, nada há. Nada mesmo.

______________________
Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! "Do egoísmo nosso de cada dia" foi escrito em 5 de agosto de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

UM COFRE, UMA CÁPSULA DE 100 ANOS - Túlio Monteiro

Corria o ano de 1999, quando recebi o convite da Fundação Demócrito Rocha - Jornal O Povo para escrever um livro. Ele viria a fazer parte da Coleção Terra Bárbara, que tem por proposta maior bibliografar grandes vultos da cultura cearense. Imediatamente me comprometi a escrever sobre o perfil de Lopes Filho, poeta simbolista e um dos sete membros idealizadores da Padaria Espiritual, associação de jovens intelectos que por aqui quebraria normas, mudaria conceitos e influenciaria inúmeras pessoas Brasil afora. 

Os meses que se seguiram foram árduos. Nas inúmeras e agradabilíssimas peregrinações que fiz a bibliotecas particulares e públicas, fui apresentado a livros raros e acervos iconográficos de belezas indescritíveis. Conheci grandes personalidades do século XIX e, particularmente, a vida de Lopes Filho, conhecido como o padeiro espiritual Anatólio Gerval, autor do Phantos, primeiro livro de cunho simbolista cearense e, talvez, brasileiro. Isso porque Phantos foi lançado por aqui em 24 de julho de 1893, enquanto o Broquéis, de Cruz e Sousa veio à luz no Rio de Janeiro somente aos 28 de agosto daquele mesmo ano. Submeto, pois, ao julgo do leitor decidir quem realmente deva ser considerado o pai do Simbolismo brasileiro.

Foi numa silenciosa tarde de outubro que, envolvido pela magia dos livros da biblioteca da Academia Cearense de Letras, deparei-me com um exemplar da História da Literatura Cearense, lançada em 1958 por Dolor Barreira. Um rico livro que conta de maneira bastante interessante importantes fatos da nossa cultura. No capítulo destinado ao Centro Literário, grêmio contemporâneo da Padaria Espiritual, e do qual Lopes Filho também fez parte, deparei-me com uma nota de rodapé que me deixou extasiado. Nela, Dolor Barreira se refere ao término do século XIX e início do século XX, mais particularmente a uma confraternização ocorrida naquele dia 31 de dezembro de 1900, na casa de Pápi Jr. - então presidente do Centro Literário -, situada no número 22 da rua General Sampaio, à altura da Cadeia Pública de Fortaleza, hoje EMCETUR.

Naquela aprazível Fortaleza de pouco mais de cinquenta mil habitantes, o século XX chegou mansamente, ainda sem anunciar os avanços tecnológicos que trazia em seu bojo, nem as desgraças que a humanidade ignobilmente infligiria a si mesma. 

Grandes homens e mulheres estiveram presentes àquela festa. Dentre muitos podemos citar José Albano, Castro e Silva, Temístocles Machado, Faria Brito, Godofredo Maciel, Jovina Pápi e Rodrigues de Carvalho. 

No entanto, o ápice do evento viria a ocorrer poucos minutos antes da meia-noite, quando se propôs que daquela reunião fosse redigida uma ata na qual constaria os nomes de todos os presentes, bem como opiniões variadas sobre o fim de um e a chegada de outro século. A ideia foi tão bem aceita que, ainda naquela noite mesmo a ata ficou pronta. Deliberou-se, também, que um escrínio de mármore em forma de livro deveria ser confeccionado para que nele fosse encerrada aquela ata, juntamente com outros documentos e periódicos datados de 31 de dezembro de 1900 e 1 de janeiro de 1901. Uma ordem expressa foi ditada: Aquele escrínio só poderia ser aberto no dia 1 de janeiro de 2001, "para que as gerações vindouras possam avaliar com que devotamento o Ceará cultiva os cometimentos da inteligência", como bem declara um trecho da ata. 

Nos primeiros dias do século XX, o escrínio foi afixado em uma das paredes da Biblioteca Pública de Fortaleza, que à época situava-se na Praça Marquês de Herval, hoje Praça José de Alencar, exatamente onde fica o Teatro José de Alencar. Entretanto, ao longo desses quase cento e vinte anos a Biblioteca mudou de lugar por mais duas vezes, estando atualmente localizada na Avenida Presidente Castelo Branco, 255, ao lado do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Garimpei por todo o ano de 2000 na esperança de encontrar tão valioso tesouro de nossa cultura. Visitei historiadores, estudei plantas arquitetônicas, pesquisei livros de história e nada, nada consegui encontrar. Simplesmente, caro leitor, aquele cofre sumiu. Talvez tenha sido destruído pelas mãos embrutecidas dos que derrubaram o prédio da primeira biblioteca ou pelo descaso de alguém que não sabia o valor da história de um povo. 

Hoje, no quase apagar desse vigésimo século e próximo do chegar de um novo milênio, já quase perdi as esperanças de encontrá-lo. A mim, creio que só resta divulgar o desejo daqueles homens e mulheres que, um dia, se importaram em documentar aos que viriam após eles as coisas que viveram quando por aqui passaram. Lamentando, porém, que se tenha perdido no tempo aquela cápsula repleta de tantos sentimentos.

Aos que até aqui se detiveram a ler o que escrevi, brindo-os com a íntegra daquela ata redigida há mais de quase cem anos. Por questão de economia, não relacionei as assinaturas que se seguem ao final da mesma. Reflitamos, pois, sobre o passado, o presente e sobre o futuro. 

Acta da sessão extraordinária realizada pelo Centro Literário, pelo término do XIX século e entrada do novo século.

Aos trinta e um dias do mês de Dezembro de mil novecentos, era cristã, pelas onze e meia da noite, o Centro Literário, desta cidade de Fortaleza, Capital do Estado do Ceará, reunido em sessão solene, em casa de seu Presidente, António Pápi Junior, na rua de General Sampaio n. 22, com a presença dos sócios efectivos abaixo assinados, e dos cavalheiros representantes de diversas associações também abaixo assinados, com a assistência das exmas. senhoras e visitantes; o sr. Presidente declarou aberta a sessão, e, numa breve mas significativa alocução, fez sentir que o seu fim era o Centro Literário celebrar condignamente a passagem do XIX século e o despontar do novo século, factos altamente expressivos para toda a humanidade, e, muito principalmente para aquelas pessoas que, como os moços do Centro Literário, vivem das ideias generosas que têm por expansão as manifestações da inteligência. Em seguida, concedeu a palavra ao orador, o sr. Raimundo de Farias Brito, que, deixando o salão onde se realizava a sessão, assomou à tribuna levantada na praça pública, onde, ante um auditório numeroso, fez um discurso eloquente, cheio de vida e de intensa vibração no historiar os estádios mais notáveis do século expirante. Perorou com o mesmo ardor e brilhantismo sobre o século XX; e, por uma coincidência feliz, às últimas palavras do notável orador cearense, soavam no relógio da Intendência Municipal e na Sé as doze badaladas da meia noite, hora extrema do século chamado da Luz. Uma salva de palmas prorrompeu da multidão, num concerto de profundo regozijo, e a música dos Aprendizes Marinheiros, oferecida gentilmente pelo ilustre Capitão de Marinha Ludgero Bento da Cunha Mota, comandante da Escola, entoou o hino brasileiro; girândolas e morteiros espoucaram no ar; queimando-se por fim uma salva de vinte e um tiros. Releva consignar aqui ecómios ao brilhantismo da decoração do edifício, seus departamentos, primando a bela alegoria feita aos dois maiores vultos da literatura pátria no século XIX, José de Alencar, o imortal cantor de Iracema, e Gonçalves Dias, o maior poeta da América do Sul, e galhardia de rua. Terminados os discursos, os sócios e demais circunstantes tomaram assento no lugar onde se realizava a sessão, usando da palavra o sr. Presidente para congratular-se com os circunstantes pela forma altamente significativa por que o Ceará intelectual sagrava este facto duplamente memorável que a todos congregava na ocasião. Foi deliberado por todos os presentes que, do ocorrido, se lavrasse a presente acta, que será encerrada em um escrínio de mármore em forma de livro, no qual se incluirão igualmente todos os jornais do dia 1 de Janeiro de 1901. Outrossim, ficou resolvido que se guardasse na Biblioteca Pública, colocado em uma das paredes do edifício, o mencionado escrínio, com a declaração de que só poderá ser aberto no dia 1 de janeiro de 2001, para que as gerações vindouras possam avaliar com que devotamento o Ceará cultiva os cometimentos da inteligência. Que este exemplo fique como um incentivo perene. Encarregou o sr. Presidente ao sócio Rodrigues de Carvalho para redigir a presente acta, que foi lavrada pelo sócio José Luís de Castro. Ceará, Fortaleza, 31 de Dezembro de 1900 - 1 de Janeiro de 1901. Eu, José de Abreu Albano, Secretário do Centro Literário, a subscrevo (assinado) José de Abreu Albano.
_____________________
Túlio Monteiro - escritor, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro. (Este artigo Um cofre uma cápsula - ora revisto e alterado - foi originalmente publicado na revista Singular em novembro de 2000.)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Um outro novo dia - Chico Araujo

Fotos de Chico Araujo.
Mais uma vez pude assistir ao nascer da manhã. Mais uma vez um céu misto de escuro e claridade: uma parte a noite se despedindo, a outra, o dia se insinuando. Foi um renascer tranquilo, no lugar de onde eu olhava.

Aos poucos os passarinhos foram expulsando o silêncio predominante, suas asas imprimindo voos em cânticos. Aos poucos, os primeiros veículos, os primeiros passos, as primeiras pessoas.

Nos jardins, o verde de gramas e cercas-vivas, as cores efusivas das flores despertando também, destacando a continuidade da vida, ao abrigo de beijos intensos do vento ainda friinho.

Sinto que desejo fosse sempre assim. Que junto com as manhãs belas de clima ameno, as famílias pudessem acordar em comemoração, sem choro triste – engasgado ou expresso. Sem choro de dor. Sem choro de saudade implacável.

Sinto que desejo fosse sempre assim: um despertar matutino em tranquilidade, em alegria, em simplicidade, em felicidade, em paz. 

Tranquilidade à semelhança daquele que acorda sem quaisquer estremecimentos de susto.

Alegria equivalente à de uma criança que corre ao encontro acolhedor do abraço da mãe – uma alegria dinamizada em um sorriso de corpo inteiro abraçada ao instante feliz.

Simplicidade, tal qual escrita poderosa de poemas de Mário Quintana, ou de Manoel de Barros.

Felicidade, estabelecida desde o acender em intenso brilho de um olhar insuspeito pleno da chama divina.

Paz, ampla e poderosa, análoga àquela que podemos deixar nos invadir, quando no espaço paradisíaco de certa região serrana.

Sinto mesmo e intensamente que desejo fosse sempre assim.

Tudo sempre acolhedor e benéfico, tal qual caldo de feijão quente que expele a frieza e falta de gosto de um almoço gelado.
_____________________
Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! "Um outro novo dia" foi escrito em 31 de julho de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...

segunda-feira, 31 de julho de 2017

O MESSIANISMO NO BRASIL DOS SÉCULOS 19 E 20 E A ELOQUÊNCIA A SERVIÇO DESSES NOVOS MESSIAS - Túlio Monteiro

No capítulo “O Homem”, Euclydes da Cunha busca abordar cientificamente os fatores diferenciadores das regiões Norte e Sul de nosso País. Ao tratar dos aspectos climáticos e geográficos, o escritor consegue atingir seus objetivos de forma amplamente didática, sendo a sua escrita dotada de extremada neutralidade, o que impõe à sua narrativa – neste ponto – um caráter dimensional profundamente utilitário. Porém, influenciado pelo absolutismo das fundamentações positivistas de Auguste Comte e Émile Littré, pelas teorias evolucionistas de Charles Darwin e por uma ciência sócio-antopológica que ainda caminhava à sombra do colonialismo europeu do século XVI, Euclydes, quando da abordagem destes tópicos, perpetra agressões à miscigenação racial brasileira dignas dos mais radicais senhores feudais do Brasil colonial.

Sobre as tendências científicas daquela época, os historiadores Flora Sussekind e Roberto Ventura comentam:

“Em Grande medida, esta ciência social que valorizava o europeu do Norte e desprezava os povos morenos, os africanos e os asiáticos – particularmente o darwinismo social de Spencer e o racismo científico de Gobineau e Lapouge – mal escondia sua natureza de apologia do domínio de classe da burguesia e da legitimação da expansão imperialista sobre o planeta. Caráter que, já em 1905, era denunciado com argúcia pelo médico e historiador sergipano Manoel Bonfim, para quem seus praticantes eram filósofos do massacre, cuja teoria não passa de um sofisma abjeto do egoísmo humano, hipocritamente mascarado de ciência barata, e covardemente aplicado à exploração dos fracos pelos fortes. ” 

Sem nenhuma intenção iconoclasta, nos propomos a comprovar de forma límpida as afirmações que acabaram de ser feitas. Com excertos transcritos de forma literal d’Os Sertões, seguidos de apreciações fundamentadas, comprovaremos, neste ponto, o caráter racista que parecia estar contido na personalidade de Euclydes da Cunha, ele mesmo um mestiço de origem luso-baiana. 

(...)

Por todos os cantos da Terra, desde os mais remotos tempos, vez por outra surgem homens com o magnífico dom da eloquência. Uns, como os sábios Platão, Aristóteles e Marco Túlio Cícero, usaram a arte de bem falar em favor de causas que pudessem engrandecer a natureza coletiva da humanidade. Outros, utilizaram-se da dificílima capacidade da expressão fluente em benefício de interesses próprios. Interesses estes quase sempre mesquinhos, porém, magnificamente camuflados por discursos ilusórios, bem ao estilo sagaz da maioria dos políticos atuais: homens eloquentes e, acima de tudo, extremamente bem sintonizados com as carências e desesperos das comunidades humildes que costumam representar. – Nada mais atual.

No Brasil, país de maioria católica desde sua descoberta, o bem-falar sempre esteve associada ao fenômeno do messianismo. Por todos os cantos deste nosso país-continente, sempre surgiram e continuam a surgir movimentos carregados de misticismo, onde homens dotados de profunda capacidade de expressar com palavras todas as revoltas, angústias e necessidades de pessoas totalmente despidas de qualquer esperança, conseguem arrebanhar centenas, às vezes milhares de fanáticos seguidores, prometendo-lhes, em geral, o impossível.

Dentre os inúmeros acontecimentos deste tipo ocorridos em terras brasileiras, alguns merecem destaque, ora por conta das graves consequências advindas da aparente loucura de seus mentores, ora pelas curiosidades quase hilárias que produziram. O mais famoso de todos esses episódios foi o de Canudos, que em 1997 completou cem anos, inspirou romances do porte de Os Sertões (1902), de Euclydes da Cunha; A Guerra do Fim do Mundo (1981), de Mário Vargas Lhosa e o filme Canudos (1997), de Roberto Resende.

Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, se autoproclamando um novo Messias, perambulou durante alguns anos pelos sertões do Nordeste, arregimentando, por cada vilarejo que passava, inúmeros seguidores. Dentre as incontáveis promessas que o novo “Filho de Deus” fez aos seus discípulos, a maior delas foi a de que em breve chegariam a uma nova Terra Prometida, repleta de tudo o que aquele povo tanto ansiava por conseguir: comida e água fartas, moradias decentes, igualdade social e partilha justa dos bens de cada um em benefício do coletivo.

O que os seguidores de Antônio Conselheiro não sabiam é que seu redentor era um homem fracassado, traído e abandonado pela mulher, além de ferrenho defensor do sistema monarquista de Dom Pedro II, que acabara de ser deposto em favor da recém-proclamada República de Deodoro da Fonseca.

Seu primeiro combate ao novo regime de governo brasileiro data de 1893. A cobrança obrigatória de impostos decretada pelos republicanos, foi o marco inicial da luta que culminaria com os acontecimentos ocorridos no arraial de Canudos cerca de quatro anos depois. N’Os Sertões, Euclydes da Cunha assim descreve este ocorrido:

“Viu a República com maus olhos e pregou, coerente, a rebeldia contra as novas leis. Assumiu desde 1893 uma feição combatente inteiramente nova.

Originou-a fato de pouca monta.

Decretada a autonomia dos municípios, as Câmaras das localidades do interior da Bahia tinham afixado nas tábuas tradicionais, que substituem a imprensa, editais para a cobrança de impostos etc.

Ao surgir esta novidade Antônio Conselheiro estava em Bom Conselho. Irritou-o a imposição; e planejou revide imediato. Reuniu o povo num dia de feira e, entre gritos sediciosos e estrepitar de foguetes, mandou queimar as tábuas numa fogueira, no largo. Levantou a voz sobre o ‘auto de fé’, que a fraqueza das autoridades não impedira, e pregou abertamente a insurreição contra as leis. ” 

Neste mesmo ano Conselheiro e seus prosélitos chegaram às margens do rio Vaza-Barris. Lá ficava Canudos, uma velha fazenda de gado abandonada que Antônio Conselheiro definiria como Nova Terra Prometida e Euclydes da Cunha como Tróia de taipa dos jagunços. 

N’Os Sertões, numa excelente descrição histórico-geográfica, Euclydes mapeia de forma pormenorizada, tanto os espaços físicos do local quanto os vários motivos e crendices que levaram incontáveis sertanejos àquelas paragens áridas:

“Canudos, velha fazenda de gado à beira do Vaza-Barris, era, em 1890, uma tapera de cerca de cinquenta capuabas de pau-a-pique.

Já em 1876, segundo o testemunho de um sacerdote, que ali fora, como tantos outros, e nomeadamente o vigário de Cumbe, em visita espiritual às gentes de todo despeadas da terra, lá se aglomerava, agregada à fazenda então ainda florescente, população suspeita e ociosa, armada até os dentes, e cuja ocupação, quase exclusiva, consistia em beber aguardente e pitar uns esquisitos cachimbos de barro em canudos de metro de extensão (Padre V.F.P., vigário de Itu, 1898), de tubos naturalmente fornecidos pelas solanáceas (canudos-de-pito), vicejantes em grande cópia à beira do rio.

Assim, antes da vinda de Conselheiro, já o lugarejo obscuro – e o seu nome claramente se explica – tinha, como a maioria dos que jazem desconhecidos pelos nossos sertões, muitos germens da desordem e do crime. Estava, porém, em plena decadência quando lá chegou aquele em 1893: tejupares em abandono; vazios os pousos; e, no alto de um esporão da Favela, detalhada, reduzida às paredes exteriores, a antiga vivenda senhoril, em ruínas...

Data daquele ano a sua revivescência e crescimento rápido. O aldeamento efêmero dos matutos vadios, centralizado pela igreja velha, que já existia, ia transmudar-se, ampliando-se em pouco tempo, na Tróia de taipa dos jagunços.

Era o lugar sagrado, cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito.

A sua topografia interessante modelava-o ante a imaginação daquela gente simples como o primeiro degrau, amplíssimo e alto, para os céus...

Não surpreende que para lá convergissem, partindo de todos os pontos, turmas sucessivas de povoadores convergentes das vilas e povoados mais remotos.

Diz uma testemunha (Barão de Jeremoabo): Alguns lugares dessa comarca e de outras circunvizinhanças, e até do Estado de Sergipe, ficaram desabitados, tal o aluvião de famílias que subiam para os Canudos, lugar escolhido por Antônio Conselheiro para o centro de suas operações. Causava dó verem-se expostos à venda nas feiras, extraordinária quantidade de gado cavalar, vacum, caprino, etc., além de outros objetos, por preços de nonada, como terrenos, casa, etc. O anelo extremo era vender, apurar algum dinheiro e ir reparti-lo com o Santo Conselheiro.

Assim mudavam os lares. ” 

A tranquilidade reinava no arraial de Canudos e cada dia mais fiéis a ele chegavam para fixar moradia, até que 1897 chegou e com ele os ataques de tropas militares enviadas pelo governo brasileiro ao lugar. Canudos não resistiu, o povo de Conselheiro não resistiu, o novo Messias não resistiu. Em ruínas, depois dos bombardeios de pesados canhões, a Nova Terra Prometida foi riscada do mapa para entrar na História do Brasil.

O tempo passou lento e o século 19 findou-se. Na primeira década deste século que também já assistia ao seu apagar de luzes, surgiu no interior de Alagoas o “monge” João Maria, que bem ao estilo de Conselheiro, arrebanhou centenas de fiéis seguidores. “Fazei penitência”, conclamava o novo redentor, enquanto descrevia, em seus magníficos sermões, como seria o fim do Mundo. Nele o Sol escureceria por três dias, incontáveis nuvens de gafanhotos arrasariam com todas as colheitas e a fome se instalaria em todos os lugares. Algo precisava ser feito para livrar o Mundo de todo aquele pecado e rezar era a solução. O caos estava por toda parte, dizia João Maria. O Mundo estava coberto de pecados, ainda mais nos lugares onde a República, segundo ele um regime pervertido, era o poder dominante.

João Maria não viveu tempo suficiente para levar a cabo um de seus projetos mais ambiciosos: o de fundar uma vila santa. Morreu de causas naturais em 1910, mais uma vez deixando os sertanejos órfãos de esperanças.

Em 1911, porém, surgia um novo “monge”. Desta vez o fenômeno ocorreria no Sul do País, mais precisamente na cidade de Palmas, interior do Paraná. Miguel Lucena de Boaventura era um desertor do 14º Regimento de Cavalaria de Curitiba que carregava sobre os ombros um processo por sedução de uma menina de doze anos. Miguel Lucena, que dizia ser o “monge” José Maria, irmão do “monge” João Maria das Alagoas, encontrou no interior do Paraná um campo extremamente fértil para sua pregação “mística". Como Antônio Conselheiro, o “monge” soube muito bem utilizar-se do desespero e das necessidades que imperavam na região àquela época. Um restritíssimo grupo de latifundiários detinha direitos sobre as terras produtivas, enquanto o Governo Federal desalojava os pequenos agricultores de suas propriedades para concedê-las a grupos de colonizadores estrangeiros, na maioria europeus, que diariamente chegavam ao País.

Miguel Lucena, diga-se “monge” José Maria, um mestiço de índio com branco, quase sem dentes, manco de uma perna, cabelos e barba compridos, e excelente desenvoltura no falar, virou santo para aquela gente. Seus seguidores juravam que ele podia andar sobre as águas; que fontes brotavam nos lugares por onde passava; que ele seria capaz de curar as mais variadas doenças, tendo inclusive o poder de conversar com Deus. As árvores sob cujas copas ele costumava pernoitar, imediatamente transformavam-se em pontos de inumeráveis romarias.

Em Taquarassu, município de Curitibanos, estado de Santa Catarina, José Maria ergueu uma igreja e no local estabeleceu uma monarquia, regime santificado por ser, segundo ele, o regime de Deus, o Rei de todos os reis. Declarou como monarca do lugar um velho fazendeiro analfabeto, com o intuito maior de cada vez facilitar mais seu poder de manipulação sobre o “rebanho” que aumentava a cada dia. Em 1912, já eram cerca de setecentos os seguidores do “monge”, número bastante significante para os padrões da época.

A vida monárquica do lugar cultivava o misticismo e a alegria, sendo a coletividade seu objetivo maior. O comércio era proibido, tendo todos que repartir igualmente o que possuíam. José Maria reinava unânime. Celebrava casamentos, dava bênçãos e profetizava coisas absurdas sem nunca ser questionado, nem mesmo quando passou a dormir com três virgens que o assessoravam permanentemente.

Um dos episódios mais hilariantes ocorridos no seu “reinado”, foi o de um jovem que queria fazer parte da sua guarda de honra. Como prova da valentia do rapaz, José Maria pediu-lhe que matasse o dragão que aterrorizava o sertão. Disposto a cumprir sua missão, durante meses o moço percorreu a caatinga à procura da tal fera. Um dia, ao encontrar o que julgou ser o rastro do dragão, partiu eufórico ao seu encontro. Já era noite quando encontrou o animal. Sem medo do barulho apavorante que o monstro fazia, sacou a espada, firmou-se na sela de sua montaria e postou-se diante da fera que vinha veloz em sua direção. Indiferente, o trem passou por cima do bravo cavaleiro e de seu cavalo. Desculpem os risos desse que vos escreve.

Preocupadas com o fanatismo que se alastrava em seu estado, as autoridades de Santa Catarina expulsaram o “monge” e seus seguidores de Taquarassu. Decididos a não se renderem, após longo tempo de caminhadas fundaram uma nova monarquia, desta vez em Irani, uma pequena cidade que ficava ao sul de Palmas, Paraná. Dispostas a não aceitarem a volta do renegado José Maria ao seu estado, autoridades militares nomearam o capitão João Gualberto para, junto com quatrocentos homens, destruírem a tal “monarquia”. Ao final do sangrento combate, ocorrido em 1912, havia centenas de mortos de cada lado, dentre eles o capitão João Gualberto e José Maria.

Se por um lado a vila santa de Irani fora dizimada, por outro a de Taquarassu renascia através das visões de uma das três “virgens” de José Maria. Teodora, que disse ter recebido em sonho um aviso do “monge”, nomeou Manuel, um jovem de dezoito anos para sucedê-lo. Pouco durou o reinado do rapaz. Joaquim, um menino de apenas onze anos o substituiu após terem descoberto que ele seduzira as três virgens com as quais, a exemplo de José Maria, costumava dormir. 

Em 1914, o governo de Santa Catarina tomando medidas drásticas, exterminou Taquarassu. Os que sobraram partiram para vários lugares, fundando em cada um deles novas vilas santas. A de Caraguatá tinha como líder espiritual a virgem Maria Rosa que, dentro de um imenso vestido branco, flores nos cabelos, espada na cinta e espingarda na sela de seu cavalo branco, liderou ágeis tropas de jagunços contra os soldados daquele estado. Outra, a vila de Santa Maria, tinha a sua frente um certo Deodato, conhecido como São Joaquim das Palmas, que além de ter por hábito matar soldados e civis, saqueava as cidades vizinhas em busca de alimentos cada vez mais escassos. 

Decidido a dar um ponto final àqueles redutos “monárquicos”, entrou em cena o Governo Federal. Comandados pelo general Setembrino de Carvalho, sete mil homens, que à época correspondiam a 80% do exército brasileiro, eliminaram, uma a uma, as vilas que existiam. Nessa espécie de “guerra santa”, pela primeira vez foram utilizados aviões da Força Aérea Brasileira para bombardear civis em nosso próprio território.

No entanto, o movimento messiânico mais bárbaro de que se tem notícia em terras brasileiras foi o da Pedra do Reino, ocorrido entre os anos de 1837 e 1838, em Monte Santo, uma formação rochosa próxima a Vila Bela, hoje São José do Belmonte, município de Pernambuco localizado na Serra do Catolé, divisa com o estado da Paraíba. Lá surgiu um mameluco chamado João Antônio dos Santos, que dizia ter sonhado com o rei Dom Sebastião de Portugal. No sonho, o rei lhe afirmara que se encontrava encantado por forças de magias negras. Para libertar-se dessas magias e voltar a reinar sob sua forma humana, duas pedras muito bonitas deveriam ser lavadas com sangue de crianças inocentes, sendo ele, João Antônio, o escolhido para liderar a sua redenção. Dom Sebastião também lhe deu garantias de que, tão logo fosse feita a lavagem, as pedras se quebrariam diante de seus olhos e delas ele irromperia para castigar a humanidade ingrata e cumular riquezas e milagres aos seus seguidores. Os pobres ficariam ricos, os cegos voltariam a enxergar, os negros ficariam brancos, os aleijados voltariam a andar e tantas outras promessas que, somente um povo esquecido pelas autoridades responsáveis por sua dignidade, seria capaz de dar ouvidos. 

Bem-falante que era, em pouco tempo João Antônio conseguiu juntar inúmeros seguidores. No dia marcado por ele para o sacrifício, um sem números de doentes e miseráveis se encontrava aos pés das duas pedras. O novo “Messias” rezou aos céus e ordenou que se iniciassem as oferendas. Pais e mães traziam seus filhos pequenos para serem sacrificados. Como consolo, João Antônio dizia-lhes que seus entes queridos alcançariam a graça divina tão logo fossem mortos.

Euclydes da Cunha, a exemplo de outros três grandes escritores brasileiros, descreve este movimento nas páginas de seu mais famoso romance:


“No termo de Pajeú, em Pernambuco, os últimos rebentos das formações graníticas da costa se alteiam, em formas caprichosas, na serra Talhada, dominando, majestosos, toda a região em torno e convergindo em largo anfiteatro acessível apenas por estreita garganta, entre muralhas a pique. No âmbito daquele, como púlpito gigantesco, ergue-se um bloco solitário – a Pedra Bonita.

Este lugar foi, em 1837, teatro de cenas que recordam as sinistras solenidades religiosas dos Achantis. Um Mameluco ou cafuz, um iluminado, ali congregou toda a população dos sítios convizinhos e, engripando-se à pedra, anunciava, convicto, o próximo advento do reino encantado de Dom Sebastião. Quebrada a pedra, a que subira, não a pancadas de marreta, mas pela ação miraculosa do sangue das crianças, esparzido sobre ela em holocausto, o grande rei irromperia envolto de sua guarda fulgurante, castigando, inexorável, a humanidade ingrata, mas cumulando de riquezas os que houvessem contribuído para o desencanto.

Passou pelo sertão um frêmito de nevrose...

O transviado encontrara meio propício ao contágio de sua insânia. Em torno da ara monstruosa comprimiam-se as mães erguendo os filhos pequeninos e lutavam, procurando-lhes a primazia no sacrifício... O Sangue espadanava sobre a rocha jorrando, acumulando-se em torno; e afirmam os jornais do tempo, em cópia tal que, depois de desfeita aquela lúgubre farsa, era impossível a permanência no lugar infeccionado.” 

Cinquenta e cinco crianças já tinham sido barbaramente executadas quando tropas federais chegaram ao lugar para dar cabo ao terrível holocausto. O tumulto que se seguiu foi enorme. Enquanto muitos corriam para longe, uns poucos fanáticos enfrentaram os soldados, elevando para oitenta e três o número de mortos, dentre eles o próprio João Antônio.

A título de curiosidade, convém especificarmos os três outros escritores citados acima que produziram obras versando sobre os acontecimentos da Pedra Bonita. O primeiro foi o cearense Araripe Júnior com seu O Reino Encantado, lançado em 1878, no Rio de Janeiro. Depois de Euclydes da Cunha com Os Sertões, de 1902. Após isso, foi a vez de José Lins do Rego retratar o fenômeno em Pedra Bonita, de 1938, à época do centenário daquele famoso massacre. Por fim, em 1971, o pernambucano Ariano Suassuna escreveu Pedra do Reino, uma versão contemporânea do acontecimento, tida por muitos como a obra definitiva sobre o assunto.


POR UMA CONCLUSÃO
Ao final de nossa análise cremos ter comprovado de forma satisfatória os objetivos propostos na introdução deste estudo. Na sua primeira parte, conduzimos o leitor a uma breve explanação do que foram as manifestações messiânicas mais importantes no Brasil dos séculos 19 e 20, dando tratamento mais cuidadoso e aprofundado aos fatos ocorridos no episódio da Guerra de Canudos, em 1897. 

Na Segunda parte, corroboramos o caráter de pouca ou nenhuma utilidade social que Euclydes da Cunha inseriu no capítulo “O Homem”, d’Os Sertões, este sim, o objetivo maior desta explanação em forma de trilogia.

De maneira crítica e clara, constatamos a extrema radicalidade do autor quando de sua abordagem da temática racial brasileira. No romance em estudo pudemos observar a genialidade de um homem muito bem informado, no que diz respeito a assuntos relacionados à geografia, à geologia, à botânica e à História do Brasil. Porém, ao direcionar-se para o campo das ciências filosóficas e humanas, Euclydes perdeu-se em conclusões absurdas quando tentou diferenciar e catalogar os seres humanos em raças e sub-raças. Ao tratar da miscigenação racial ocorrida em nosso País desde a época de seu descobrimento, o autor, de maneira pouco ética e tendenciosa – Positivista e quase ariana – termina por definir os mestiços brasileiros como uma sub-raça prejudicial ao bom andamento da evolução humana, privando-se, desta forma, da oportunidade de inserir Os Sertões no seletíssimo grupo das obras-primas universais. Fica, pois, aqui, nosso protesto formal àqueles que tentam equiparar este romance à obra-mor lusitana: Os Lusíadas, de Camões. Já que um escritor, para igualar-se ao maior literato português de todos os tempos tem que, no mínimo, respeitar as condições étnicas e culturais de seu povo, comportamento ético este que Euclydes da Cunha em momento algum assumiu quando da feitura de seu livro.

Para concluir transcreveremos dois trechos extraídos d’Os Sertões, onde mais uma vez o escritor dá mostras de sua falta de profundidade científica no que diz respeito às variações raciais humanas. Nos trechos a seguir transcritos, a prova cabal da inaptidão e da falta de coerência de Euclydes da Cunha nos campos da antropologia e da sociologia:

“Não temos unidade de raça.
Não a teremos, talvez, nunca.”

“Os sertanejos invertiam toda a psicologia da guerra: Enrijavam-nos os reveses, robustecia-os a fome, empedernia-os a derrota.
Ademais entalhava-se o cerne de uma nacionalidade.
Atacava-se a fundo a rocha viva de nossa raça.” 

Não poderíamos findar esta análise com prova mais contundente do pouco apuro social-antropológico de Euclydes da Cunha. Como elevar Os Sertões à categoria de obra-prima da literatura brasileira quando nele estão contidas semelhantes discrepâncias? Como o autor pode, num determinado momento aniquilar com a dignidade dos sertanejos brasileiros e num outro alavancá-los à condição de bravos guerreiros? 

No nosso entender Os Sertões é, sem dúvidas, uma obra literária de grande porte. Seu caráter utilitário e informativo, como já dissemos, é magnífico no que se relaciona ao plano histórico. Sem ele os acontecimentos daquele final de século 19 nada mais seriam hoje que meros fragmentos repassados de geração para geração. De sua grandeza, neste aspecto, temos certeza. Porém, nosso objetivo inicial era o de mostrar as duas faces – a utilitária e não utilitária – de seu conteúdo. E nisto, temos convicção de havermos conseguido lograr êxito.

_______________________________________
Túlio Monteiro - escritor, revisor e crítico literário, publica todas as segundas aqui no Evoé! Leia também Literatura com Túlio Monteiro.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

IRONIA E CIRCULARIDADE POLÍTICO-SOCIAL EM OS BRUZUNDANGAS, DE LIMA BARRETO - Túlio Monteiro

Trazemos a público este ensaio de Túlio Monteiro sobre Lima Barreto, sem dúvida o mais importante escritor sudestino do século XX. Autor sem par no Brasil e que, sozinho, fez mais pela autêntica expressão cultural brasileira do que toda a elite cultural e midiática da Semana de 22. Boa leitura! (KB)


IRONIA E CIRCULARIDADE POLÍTICO-SOCIAL EM OS BRUZUNDANGAS, DE LIMA BARRETO


...na verdade, Lima Barreto soube falar basicamente sobre os mesmos temas de duas formas, ou melhor, para dois públicos. A questão de um Brasil que se queria moderno posteriormente à Proclamação da República, a permanência da estrutura escravocrata, a intolerância com a indiferença, os limites do nacionalismo, o olhar duplo: um na Europa, outro na rua do Ouvidor, a indiferença diante do país agrário, a utilização espúria da política, a estrutura do favor.
Beatriz Resende


Afonso Henriques de Lima Barreto veio à luz aos 13 de maio de 1881. Nasceu mulato, fruto do casamento entre a também mulata Amália Augusto Barreto, professora criada por uma família de recursos, e de João Henriques de Lima Barreto, tipógrafo e homem de vasta leitura, filho nascido da união de uma escrava com um comerciante madeireiro português.

Lima Barreto foi um perspicaz observador da sociedade brasileira de seu tempo, em especial da sociedade carioca, à época profundamente centrada nos modismos, inovações e costumes culturais importados da Europa. Um Rio de Janeiro que passava por grandes mudanças sócio-políticas que geraram a assinatura da Lei Áurea, abolindo a escravidão, e a queda da Monarquia de Dom Pedro II em detrimento da República de Deodoro da Fonseca.

O menino de poucos recursos que perdeu a mãe aos sete anos de idade e veria o pai enlouquecer alguns anos mais tarde, tornou-se um arguto acompanhador das mudanças sociais e estéticas daquele Brasil do final do século XIX e início do XX. Vivaz, desde muito cedo o jovem Lima Barreto passou a deitar no papel os grandes acontecimentos ocorridos em seu entorno, crônicas escritas que ainda hoje são valiosos documentos de consulta para escritores, antropólogos e historiadores.

A facilidade que tinha para redigir - certamente a mais completa válvula de escape para os sofrimentos que assolaram sua vida - levou Lima Barreto a escrever, a partir de 1902, em vários periódicos cariocas, tendo sido o jornal A Lanterna, dirigido por Bastos Tigre, o primeiro a receber textos de sua lavra. Vieram depois: Correio da Manhã; Revista Fon-Fon; Revista Floreal (idealizada por ele); Jornal do Commercio; Gazeta da Tarde; Revista O Riso; Correio da Noite; Última Hora; Jornal A Noite; Revista Careta; Semanário Político ABC; Diário Carioca; Revista Hoje e Revista Souza Cruz. Ao contrário do que muitos estudiosos da literatura brasileira afirmam, no que diz respeito à liberdade de publicação, Lima Barreto nunca foi marginalizado ou sofreu retaliações por parte dos cânones literários e jornalísticos de sua época. Pelo contrário, o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma sempre teve autonomia para publicar suas panfletárias e satíricas crônicas, muitas delas abertamente alfinetadas em prestigiadas figuras do Brasil de seu tempo.

Criatura de aguçado intelecto, Lima Barreto, que representa para a prosa de nosso país o que Cruz e Souza representa para a nossa poesia, foi um homem que sempre sofreu com os revezes de uma vida pautada pelas dificuldades, fossem elas financeiras ou espirituais, principalmente espirituais, já que aos legítimos homens de letras as finanças são sempre relegadas a um segundo plano. Sofreu na sua pele quase negra as discriminações raciais de um Brasil recém-saído da Abolição, tendo que acompanhar dolorosamente a loucura crescente de seu pai, não sem antes ter que conviver, em caráter quase permanente, com sua própria loucura.

Ancorado em sua húmile origem e sensibilidade apurada, Lima Barreto escreveu magistralmente sobre a realidade brasileira vista de baixo para cima no que diz respeito às camadas sociais, tendo sido detentor de uma coragem ímpar para julgar e enfrentar, através de sua cortante e afiada pena, os poderosos e opressores de sua época. O preço a ser pago foi alto, uma vez que escrever o que se pensa, sem floreios ou reticências, custa caro. Abertamente, não - como afirmamos acima -, mas nos bastidores intelectuais foi preterido por quase todos os "grandes" literatos de seu tempo, a ponto de nunca ter conseguido tornar-se um imortal da Academia Brasileira de Letras, apesar de nela ter tentado ingressar por três vezes. Conchavos dos medalhões de plantão. Nada mais atual.

No primeiro dia de novembro de 1922 – ano em que Mário de Andrade e seus seguidores desfraldaram, em São Paulo, a bandeira do Modernismo Brasileiro –, Lima Barreto morreu vitimado pelas complicações cardíacas advindas dos excessos alcóolicos. Dois dias depois, faleceria seu pai, João Henrique de Lima Barreto. Nas mãos do escritor Lima Barreto, sua irmã Evangelina encontrou um exemplar da revista francesa Revue des Deux Monde, uma de suas leituras favoritas, que ele fez questão de citar em "Os Samoiedas", capítulo inicial de Os Bruzundangas (1922). Ao seu concorrido funeral, realizado no Cemitério São João Batista, não compareceram intelectuais ou membros da alta sociedade, mas, sim, inúmeros anônimos, personagens maiores de seus ácidos e contundentes textos literários, hoje traduzidos para as línguas francesa, espanhola, alemã, russa, japonesa e inglesa, comprovação maior da universalidade de sua literatura.

OS BRUZUNDANGAS: ENTRE A SÁTIRA E A CARNAVALIZAÇÃO.

Corria o ano de 1917 quando Lima Barreto, aos trinta e seis anos e após quatro licenças para tratamento de saúde e uma internação no hospício da Praia Vermelha, hospitalizou-se mais uma vez em busca da recuperação de algum vigor físico. O diagnóstico: alcoolismo. No período em que esteve em tratamento, concluiu os escritos daquele que viria a ser seu primeiro livro satírico: Os Bruzundangas.

Após arrematar os trinta e nove textos que dão formato ao tecido literário de Os Bruzundangas, Lima Barreto confiou seus originais ao editor J. Ribeiro dos Santos que, intencionalmente, os manteve inéditos até a morte do escritor em 1922, transformando Os Bruzundangas, por ele mesmo propagado aos quatro ventos, no primeiro livro póstumo de Lima Barreto. Vendas e os lucros garantidos.

O termo Bruzundangas é um brasileirismo registrado em dicionário que significa confusão, trapalhada, embrulhada...mistura de coisas imprestáveis, sendo este último significado o que melhor se adapta à mensagem panfletária que Lima Barreto quis deixar registrada nos textos contidos no livro ora analizado.

País fictício que bem poderia ser o Brasil da primeira metade do século XX ou mesmo o que hoje habitamos. a República dos Bruzundangas é uma nação assolada pelos sete Pecados Capitais e suas variantes. Pátria na qual a corrupção é moda e modelo para se chegar ao poder e onde pessoas honestas são tachadas como seres imbecilizados, comprovação maior de que malícia e ardileza são características obrigatórias aos que desejam "vencer", "ascender" social e financeiramente nas plagas daquele território.

Que não estranhem os leitores de Os Bruzundangas se se depararem com situações extremamente contemporâneas no que diz respeito aos desmandos e abusos ocorridos neste Brasil de início do século XXI. A sensação de atualidade e de que nada mudou nos últimos noventa anos é tão nítida, tão palpável, que o ledor menos avisado se convencerá de que Lima Barreto não morreu em 1922, mas, sim, que continua vivo e escrevendo acidamente, dardejando duras verdades à social classe dominante brasileira, uma minoria mínima - perdoem a redundância - que há mais de quinhentos anos dita normas e diretrizes ao nosso proletariado tupiniquim.

No seu impressionantemente contemporâneo Os Bruzundangas, Lima Barreto satiriza o Rio de Janeiro de seu tempo, àquela época capital do Brasil. A nobreza, a política, a Constituição, as forças armadas, os heróis, o sistema de saúde, a educação, os literatos, enfim, a sociedade em sua totalidade, são alvos contundentemente atingidos pelas flechas incendiárias do arqueiro Lima Barreto, mulato quase negro que sofreu no corpo e n´alma o racismo e a rejeição de um Brasil que foi e ainda é basicamente povoado por índios, negros e uns quase brancos. País que até hoje não admite sua miscigenação, sua mestiçagem.

Em Os Bruzundangas, Lima Barreto pratica com excelência ímpar a estrutura literária que o formalista russo Mikhail Bakhtin viria a definir, em 1928, como carnavalização, processo que consiste em satirizar assuntos ligados à dialética social, centrando sua temática em uma afiada crítica às instituições, pessoas, grupos e hábitos de determinados segmentos da sociedade, valendo-se para isso de recursos retóricos que, embasados na comicidade e na ironia, produzem efeitos moralizantes no que diz respeito às noções sócio-ideológicas dos leitores.

E é esta ironia, esta comicidade aparentemente descompromissada, mas carregada de crítica aos abusos perpetrados pelos poderosos, que a visceral pena de Lima Barreto fez e faz brotar dos capítulos que compõem Os Bruzudangas. Textos agudamente escritos há mais de nove décadas, mas encantatoriamente atuais no que se refere ao combate explícito à circularidade viciosa que as caducas classes dominantes tanto insistem em transmitir, geração após geração, em insana busca pela perpetuação do poder.

Os Bruzundangas, de Lima Barreto, caros ledores, é leitura obrigatória aos que buscam entender, discutir, combater e equalizar a perenidade do poder que se instalou nesse país há mais de meio milênio, idealizando tempos melhores aos povos que habitam e virão a habitar este nosso Brasil que, sei, ainda se tornará uma nação forte e igualitária.

__________________________
TÚLIO MONTEIRO – Cearense de Fortaleza, é escritor e pesquisador literário. Graduado em Letras com Especialização em Investigação Literária pela Universidade Federal do Ceará. Tem publicados Agosto em Plenilúnio (poesia); Lopes Filhos e a Padaria Espiritual (biobibliografia histórica) e Sinhá D´Amora Primeira-Dama das Artes Plásticas do Brasil (biobibliografia histórica). Em 2004 lança Dois Dedos de Prosa com Graciliano Ramos (contos). Foi Diretor da Galeria Antônio Bandeira FUNCET – PMF. E-mail: tuliomonteiro@yahoo.com.br


CRONOLOGIA DE VIDA (e de morte)

1881 - Aos 13 de maio, nasce, no Rio de Janeiro, Afonso Henriques de Lima Barreto, filho da mulata Amália Augusta Barreto, professora criada por uma família de recursos, e do tipógrafo e ávido leitor João Henriques de Lima Barreto, filho de uma escrava e de um madeireiro português. Nesse mesmo ano, Machado de Assis publica Memórias Póstumas de Brás Cubas.
1887 - Dona Amália Augusta Barreto, mãe de Lima Barreto, morre em dezembro de tuberculose galopante.
1888 - Aos 13 de maio, No Rio de Janeiro, Princesa Isabel assina a Lei Áurea abolindo a escravidão no Brasil. O mulato Lima Barreto, que naquele dia comemora seu sétimo aniversário, assiste, ao lado de seu pai, a cerimônia da abolição, evento histórico que ficaria marcado para sempre em sua memória.
1889 - 15 de novembro. A Proclamação da República é declarada por Marechal Deodoro da Fonseca, que viria a ser o primeiro Presidente do Brasil.
1890 - Instalação da primeira Assembléia Constituinte do Brasil.
1891 - Deodoro da Fonseca decreta o fechamento do Congresso Nacional. Floriano Peixoto comanda um contragolpe que o levaria a ser o segundo Presidente do Brasil.
1892 - O literato Antônio Sales, ao lado dos poetas Lopes Filho, Temístocles Machado, Sabino Batista, Ulisses Bezerra, Álvaro Martins e Tibúrcio de Freitas, funda a Padaria Espiritual, movimento cultural surgido no Ceará que correu o Brasil de forma contundente, diagnosticando, seis lustros antes, aos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922 que a junção, a soma da ecleticidade de muitos segmentos intelectuais (literatura, pintura, música e sadia molecagem) era uma fórmula magnífica para se divulgar ao Brasil e ao mundo a riqueza cultural do nosso país.
1894 - Prudente de Morais torna-se o terceiro Presidente do Brasil.
1895 - Após concluir a instrução primária, Lima Barreto ingressa no Ginásio Nacional, que no período da Monarquia brasileira se chamava Colégio Pedro II.
1897 - Ingressa na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
1898 - Campos Sales se torna o quarto Presidente do Brasil.
1902 - Lima Barreto, a convite de Bastos Tigre, passa a escrever no jornal A Lanterna. Inicia-se, ali, a vasta colaboração de Lima Barreto em periódicos cariocas. Seu pai, João Henriques de Lima Barreto, enlouquece. Lima Barreto se vê obrigado a deixar a Escola Politécnica do Rio de Janeiro para trabalhar e sustentar a família. Aos 21 anos, procura, na bebida, consolo para seus problemas.
1903 - Através de concurso público, assume o cargo de amanuense na Diretoria de Expediente da Secretaria de Guerra.
1905 - Para reforçar o orçamento doméstico passa a trabalhar como jornalista profissional no jornal Correio da Manhã.
1907 - Lança o primeiro número da Revista Floreal. Para restabelecer-se de uma fraqueza geral do organismo, solicita sua primeira licença para tratamento de saúde.
1909 - Sob os cuidados do editor M. Teixeira, o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha é publicado em Lisboa, Portugal.
1910 - Nova licença médica. Diagnóstico: impaludismo, doença infecciosa também conhecida como malária.
1911 - No Jornal do Commercio começa a publicar em folhetins aquele que viria a ser o seu romance mais conhecido: Triste Fim de Policarpo Quaresma.
1912 - Passa a publicar na Gazeta da Tarde a sátira Numa e a Ninfa, que em 1915 seria publicado em forma de livro. Mergulha ainda mais profundamente na bebida. Outra licença médica para tratar de reumatismo poliarticular e hipercinese cardíaca.
1914 - Entre 18 de agosto e 13 de outubro, Lima Barreto é recolhido pela primeira vez ao Hospício da Praia Vermelha. A vida difícil, a Loucura do pai e o alcoolismo são fatores cruciais para sua primeira crise neurastênica.
1916 - O uso excessivo do álcool e a vida desregrada leva-o a interromper por completo sua vida profissional e literária. Nova licença médica para tratamento de uma anemia profunda.
1917 - Greves operárias são deflagradas em todo o Brasil. Na Rússia, os bolcheviques proclamam a doutrina Socialista. Lima Barreto atua ativamente na imprensa anarquista, apoiando as manifestações libertárias dos trabalhadores brasileiros. Novo internamento, desta vez para tratar seu alcoolismo. No Hospício, escreve as crônicas que comporiam Os Brazundandas, livro satírico que só seria publicado em 1922, um mês após sua morte.
1918 - Diagnosticado como portador de epilepsia tóxica, é considerado inválido para o serviço público, requerendo, pois, aposentadoria das suas atividades de amanuense na Diretoria de Expediente da Secretaria de Guerra. Completamente livre para exercer suas atividades de literato, apoia o movimento bolchevique lançando o Manifesto Maximalista Brasileiro. Entrega ao editor Monteiro Lobato, seu admirador confesso, os originais de Vida e Morte de M. F. Gonzaga de Sá, seu primeiro livro a receber tratamento editorial de qualidade.
1919 - Monteiro Lobato traz à luz Vida e Morte de M. F. Gonzaga de Sá. Lima Barreto é novamente recolhido ao Hospício da Praia Vermelha.
1922 - Em São Paulo, a Semana de Arte Moderna define novas estruturas e diretrizes à literatura praticada no Brasil. No primeiro dia de novembro, Afonso Henrique de Lima Barreto cerrou definitivamente os olhos para este mundo. Fechava-se, ali, o círculo de sua magnífica vida. Ao lado de sua cama, estava sua irmã Evangelina Barreto, que dois dias após sepultar seu irmão teria que buscar forças para também inumar seu pai, o tipógrafo e ávido leitor João Henriques de Lima Barreto, falecido após vinte anos de loucura.

BIBLIOGRAFIA DE LIMA BARRETO

Recordações do Escrivão Isaías Caminha (romance) - 1909
Aventuras do Dr. Bogóloff (narrativas humorísticas) - 1912
Triste Fim de Policarpo Quaresma (romance) - 1915
Numa e a Ninfa (romance) - 1915
Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (romance) - 1919
Histórias e Sonhos (contos) - 1920
Os Bruzundangas (sátira) - 1922
Bagatelas (crônicas) - 1923
Clara dos Anjos (romance) - 1948
Outras Histórias e Contos Argelinos (contos) - 1952
Coisas do Reino de Jambón (sátira) - 1953
Feiras e Mafuás (crônicas) - 1953
Marginália (crônicas) - 1953
Vida Urbana (crônicas) - 1953
Diário Íntimo (memórias) - 1953
Cemitério dos Vivos (memórias) - 1953
Impressões de Leitura (crítica) - 1956

BIBLIOGRAFIA SOBRE LIMA BARRETO

BARBOSA, Francisco de Assis. A Vida de Lima Barreto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.
BEIGUELMAN, Por Que Lima Barreto. São Paulo: Brasilientse, sem data.
BOSI, Alfredo. "O Romance Social: Lima Barreto". In: História Concisa da Literatura Brasileira, São Paulo, 1995.
BROCA, Brito. A Vida Literária no Brasil - 1900. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.
CANDIDO, Antonio. "Os Olhos, A barca e o Espelho". In: A Educação Pela Noite e Outros Ensaios. São Paulo: Ática, 1987.
CURY, M. Zilda Ferreira. Um Mulato no Reino de Jambón. São Paulo: Cortrez, 1981.
FIGUEIREDO, Maria do Carmo Lanna. O Romance de Lima Barreto e sua Recepção. Belo Horizonte: Lê, 1995.
LINS, Osman. Lima Barreto e o Espaço Romanesco. São Paulo: Ática, 1976.
PROENÇA, M. Cavalcanti. "Romancistas da Cidade: Macedo, Manuel Antônio e Lima Barreto". In: HOLLANDA, Aurélio Buarque de. (coordenação). O Romance Brasileiro. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1952.
PRADO, Antonio Arnoni. Lima Barreto: o Crítico e a Crise. Rio de Janeiro: Cátedra, 1976.
RESENDE, Beatriz. Lima Barreto e Rio de Janeiro em Fragmentos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, Campinas, Unicamp, 1993.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Estou aqui, mas, você, onde está? - Chico Araujo

Sempre digo que comecei a escrever com algum viés literário por volta dos doze anos de idade. Pretensão minha? Não. Sempre se começa em algum ponto do tempo, uns muito cedo, outros um pouco mais adiante (Pedro Nava somente navegou nas marés da escrita memorialista – portanto, escrita com inspiração literária – após interromper a carreira de médico). Sempre é essa a referência que minha memória me dá, quando especula sobre esse meu início. Como a memória costuma ser seletiva, não é preciso esse marco.

Sei que no início tal escritura formalizou-se pela aventura em poemas expressivos, no sentido de efetivar uma conversa comigo mesmo, acerca do que eu pensava e sentia naquele período de pré-adolescência. Foi uma época de não revelação ao público; os escritos dormiam em cadernos que eu guardava, distantes dos olhos que não os meus.

Certamente me desnudava muito naqueles poemas, mas hoje não tenho nenhum documento daqueles meus registros poéticos iniciais, por decorrência de um fato que reputo como infeliz: quando contava quinze anos, por conta de um comentário zombeteiro, sarcástico de um amigo, motivado por impulso negativo destruí aqueles meus arquivos.

Durante algum tempo nada mais escrevi. Felizmente, para mim, somente durante algum tempo. Quando a escrita me lembrou de minha necessidade de escrever, retomei canetas, lápis, máquinas de datilografia e papéis, tendo o cuidado de não incluir aquele amigo na minha lista de possíveis leitores. Não tenho receio de crítica, porém tenho muito asco do sarcasmo, do deboche, do escárnio feito a questões que se despontam sérias.

Segui em frente, fui vivendo experiências muitas no universo das artes e hoje estou aqui, mas, você, onde está?

Essa pergunta é somente mais uma reflexão, leitor. Refletirá comigo?

Somente estou hoje aqui onde me encontro porque em concomitância à possibilidade do ato de escrever vivi a felicidade de me encontrar com atos de leitura. Bem, é certo que os atos de leitura começaram a se evidenciar um pouco antes, sendo logo seguidos de ações de escrita – decerto é exatamente assim que ocorre com todos cujo dia a dia se constrói também com a vivência desses dois fatores, envolvendo a literatura ou não.

Há muitos anos, portanto, se deu meu primeiro contato com a magia da leitura. Tive esse encontro ainda na minha infância e sei que por causa desse acontecimento sou hoje como sou. Creio mesmo que se não tivesse com ela me envolvido, se não houvesse sido envolvido por ela, tudo em minha existência teria se dado de maneira bastante diferente.

Em minhas palavras não se veja qualquer laivo de arrogância, pois, sinceramente, não tenho nenhuma intenção de arrogante ser. No entanto, constato, todo dia, diferenças fundamentais entre pessoas que leem e entre outras cuja distância da leitura é evidente. Nesse segundo grupo, o saber costuma apresentar sérias limitações. Em diversos aspectos.

Um deles se localiza no conhecimento acadêmico, ambiente onde transito por meio do experimento do processo ensino-aprendizagem. Quem por ele resolve transitar, necessita de ter domínio amplo sobre leitura – técnicas e métodos – e fluência no ato de ler. Sem amplo domínio sobre esse saber, como compreender as nuances do fazer(-se) acadêmico?

Outro aspecto relevante assenta-se e se corrobora na experiência da leitura do mundo que nos cerca. Isso necessariamente significa não dever, o leitor, limitar-se à compreensão de informações advindas das palavras utilizadas nos textos escritos e divulgados pelos mais variados meios de comunicação diariamente. Mais amplamente, o leitor deve compreender além delas, além dos seus significados mais corriqueiros, a fim de que possa alcançar todas as pretensas intenções de quem as usou no texto criado. A leitura de mundo, assim, soma o conhecimento do que foi escrito com os conhecimentos que o leitor já possui acerca de sua própria experiência de vida, individual ou coletivamente, possibilitando-lhe um saber mais amplo sobre o mundo em que vive.

Nesse segundo aspecto, insere-se, entre outras, a capacidade de ler as questões político-econômico-sociais as quais fazem funcionar a sociedade. Bem ou mal. Julgo ser de profunda valia a maior e mais qualificada capacidade leitora referente a essas questões; uma vez competente nessa necessidade, pode, o leitor, com segurança, decidir o que fazer para sua vida ser realmente da maneira como precisa e deseja que ela seja, pode perceber o que ações governamentais lhe concedem não como benefício social nem humano, mas como sofrimento e perda, imediata ou futura – dessa consciência pode construir seus mecanismos de defesa e de enfrentamento.

Se “ler é desvendar o mundo”, a qualidade desse desvendamento possibilita uma nova “escrita” para ele. Uma nova escrita que não se limita ao uso de palavras – embora elas estejam indelevelmente amalgamadas à existência de cada um, sendo alguns desse “cada um” penalizados frequentemente por não as dominarem: é de senso comum a verdade de que recai sobre analfabetos e pouco letrados a infame condição de seres com experiências sociais inferiores, estas, ainda, com profundo poder de limitar-lhes as condições econômicas. No fim das contas, tornam-se pessoas sem direitos por não os saberem, sem voz por não a saberem proferir e ecoar – cidadãos sem o experimento da cidadania, alijados de decisões e de soluções para sua própria existência.

Da posição social que ocupo e a partir da qual falo, ainda sonho com aquele dia em que as pessoas se olharão com olhar pleno de cidadania, cada uma reconhecendo na outra a exata medida do seja, respeitando e sendo respeitada, reconhecendo e sendo reconhecida pela importância de serem humanas, cidadãs conscientes de seus limites e de suas potencialidades.

Leitor, estou aqui, mas, você, onde está?

_______________________________
Chico Araujo publica todas as quartas-feiras no Evoé! Estou aqui, mas, você, onde está? foi escrito em 24 de julho de 2017. Leia mais Chico Araujo em Vida, Minha Vida...